- O “algoritmo do medo” descreve como o bullying se reforça e se expande, especialmente através do ciberacoso.
- A obra de José Antonio Luengo oferece uma análise crítica de duas décadas de políticas e protocolos contra o acoso escolar na Espanha.
- A tecnologia e a inteligência artificial amplificam o dano, exigindo alfabetização digital crítica e canais de denúncia eficazes.
- A resposta passa por uma responsabilidade compartilhada entre escola, famílias e serviços de saúde, com foco em prevenção e bem-estar emocional.
Nos últimos vinte anos, Espanha tem sido um laboratório vivo de políticas, protocolos e programas de combate ao acoso escolar. Ao mesmo tempo, a hiperconectividade, as redes sociais e, mais recentemente, a inteligência artificial, mudaram completamente o cenário em que esse problema acontece. A partir das ideias do psicólogo José Antonio Luengo e de diferentes iniciativas institucionais, este artigo traça uma radiografia do chamado “algoritmo do medo” no bullying, explorando o que está falhando, o que já avançou e o que ainda precisa ser feito em escolas, famílias e ambientes digitais.
O que é o “algoritmo do medo” no acoso escolar?
O termo “algoritmo do medo” descreve a dinâmica pela qual o bullying se reforça, se repete e se intensifica até converter o dia a dia da vítima em um estado de alerta permanente. Não se trata apenas de um agressor e uma vítima, mas de uma engrenagem social e digital que envolve colegas, observadores, plataformas, apps de mensagens e redes sociais. Cada piada cruel, cada apelido humilhante, cada comentário ou meme compartilhado são como linhas de código que alimentam esse algoritmo.
Nesse sistema, o medo deixa de depender unicamente do agressor direto e passa a ser alimentado por uma audiência difusa e, em grande parte, invisível. A vítima sabe que qualquer foto sua pode virar motivo de zombaria, que um vídeo comprometedor pode ser viralizado em minutos, que uma conversa privada pode ser exposta para toda a turma. O resultado é uma sensação de vulnerabilidade constante: mesmo fora da escola, o acoso continua latejando no celular.
O “algoritmo” também se sustenta no silêncio dos espectadores. Colegas que presenciam agressões, leem mensagens ofensivas ou veem conteúdos humilhantes e, ainda assim, não intervêm, não denunciam e, às vezes, até reagem com risos ou “likes”, cumprem uma função chave na engrenagem. Seu silêncio e comportamento legitima a violência, transmitindo ao agressor a ideia de que “não é tão grave” e à vítima, a mensagem devastadora de que está sozinha.
Do ponto de vista psicológico, esse mecanismo de medo prolongado impacta diretamente a saúde mental das crianças e adolescentes. Aumentam-se os níveis de ansiedade, a sensação de vergonha, a autocrítica destrutiva, a dificuldade para confiar em outras pessoas e, nos casos mais graves, surgem ideações suicidas. Quando a escola e o entorno falham em cortar esse algoritmo, o acoso deixa de ser um incidente pontual e vira um modo de vida baseado na sobrevivência.
É justamente contra essa lógica que obras como “El algoritmo del miedo. Radiografía del acoso escolar”, de José Antonio Luengo, se levantam como um grito e, ao mesmo tempo, como uma ponte: um grito para dizer basta à indiferença, e uma ponte para articular respostas conjuntas entre vítimas, famílias, docentes, profissionais de saúde e toda a comunidade educativa.
O livro “El algoritmo del miedo”: uma radiografia profunda do bullying
“El algoritmo del miedo. Radiografía del acoso escolar” é uma obra de não ficção que mergulha de forma rigorosa na realidade do bullying na Espanha das últimas duas décadas. Longe de ser apenas um ensaio teórico, o livro combina experiência de campo, casos reais relatados por jovens e uma análise crítica das políticas públicas e protocolos existentes.
O ponto de partida do autor é categórico: o acoso escolar não é uma travessura infantil, é uma ferida silenciosa que sangra por dentro muito antes de ser notada do lado de fora. Crianças e adolescentes que sofrem bullying ficam “em pedaços” emocionalmente, perdem a confiança em si mesmos, veem a alegria ser substituída por medo e desconfiança, e alguns chegam a perder também a vontade de viver.
Luengo descreve seu livro como um grito e também como um ponto de encontro. É um grito contra o silêncio cúmplice, contra o costume de minimizar o sofrimento das vítimas e contra a crença de que “isso sempre existiu e sempre vai existir”. Mas é também uma ponte que convida vítimas, famílias, professores, colegas, gestores escolares e profissionais de saúde a trabalharem juntos na construção de entornos seguros, onde crescer signifique viver e amadurecer, e não apenas sobreviver ao dia seguinte.
A obra analisa por que tantos planos e medidas contra o acoso escolar, mesmo bem-intencionados, não têm alcançado o impacto esperado. Protocolos que existem “no papel” mas não são aplicados com seriedade, falta de formação específica para docentes, escassez de tempo para o trabalho tutorial e preventivo, respostas superficiais que só buscam “apagar incêndios” em vez de transformar a cultura escolar. A partir dessa revisão, o livro propõe caminhos de mudança concretos e aplicáveis. Analisar os fatores precipitantes no bullying é essencial para entender essas falhas.
Um dos méritos centrais do livro é seu caráter honesto e direto. Não se limita a denunciar falhas; aponta avanços, reconhece esforços institucionais, mas insiste na ideia de que é preciso mais compromisso real, continuidade e coragem para enfrentar conflitos difíceis, envolver famílias resistentes e proteger, de forma incondicional, quem está em situação de vulnerabilidade.
Quem é José Antonio Luengo e por que sua voz importa
José Antonio Luengo é uma das referências espanholas mais reconhecidas em acoso escolar e bem-estar emocional nas escolas. Psicólogo formado pela Universidade Complutense de Madrid, é catedrático de Ensino Secundário na especialidade de Orientação Educativa e tem uma longa trajetória em cargos de responsabilidade na psicologia educativa.
Ele foi decano do Colégio Oficial de Psicologia de Madrid e vice-presidente primeiro do Conselho Geral de Psicologia da Espanha, participando ativamente na definição de linhas de atuação em saúde mental infantojuvenil e convivência escolar. Atualmente, atua como psicólogo na Unidade de Convivência e coordena o Equipe de Apoio Socioemocional da Inspeção Educativa da Comunidade de Madrid, o que o coloca na linha de frente do acompanhamento de casos complexos em centros educativos.
Além de “El algoritmo del miedo”, Luengo é autor de outros títulos dedicados à infância e adolescência, como “El jardín de los abrazos” e “El dolor adolescente”. O primeiro é um conto que aborda o acoso escolar de forma acessível para crianças, enquanto o segundo aprofunda nos transtornos e sofrimentos psicológicos da juventude, como depressão, ansiedade e condutas autolesivas.
Seu compromisso com a prevenção do ciberbullying e com os desafios da era digital é também conhecido através de sua participação em projetos como PantallasAmigas. Já em 2014, ele apresentava a conferência “Prevenção do ciberbullying e protagonismo do alumnado”, destacando o papel ativo que os próprios estudantes podem ter na mudança da cultura digital. Em 2023, voltou a esse espaço com a palestra “Efeitos e desafios da saúde mental entre telas”, analisando o impacto da hiperconectividade no equilíbrio emocional dos menores.
Esse percurso levou Luengo a receber o Prêmio de Trajetória Profissional na I Edição dos Prêmios PantallasAmigas, dentro de um encontro dedicado à “Educação e Bem-Estar Digital”. Ou seja, sua voz sobre o algoritmo do medo não é teórica nem distante: nasce do contato diário com jovens, professores, famílias e das feridas reais que o bullying deixa.
Um acoso que não termina ao sair da escola: do pátio às telas
Um dos aportes mais importantes do conceito de “algoritmo do medo” é mostrar que o bullying deixou de ser um fenômeno limitado ao espaço físico da escola. Se antes a criança podia, ao menos, encontrar algum alívio ao chegar em casa, hoje o acoso continua no celular, no tablet e no computador, através de mensagens privadas, grupos de chat, redes sociais e plataformas de vídeo.
O ciberacoso prolonga o sofrimento porque não conhece horários nem portas fechadas. A qualquer momento pode chegar uma nova mensagem ofensiva, uma montagem de mau gosto, um áudio humilhante ou um comentário que reativa o medo. Muitas vítimas relatam a sensação de que “não há refúgio”, de que o agressor está sempre a um clique de distância, acompanhado por uma multidão virtual de observadores.
Luengo descreve esse cenário como um ecossistema onde a exposição, a viralização e a participação (ativa ou passiva) de outros menores retroalimentam o medo. A lógica das redes premia visibilidade e impacto, não empatia; quanto mais chocante o conteúdo, mais atenção ele gera. Infelizmente, isso pode significar que um vídeo humilhante com uma vítima chorando circule como se fosse entretenimento.
A hiperconectividade também dificulta o esquecimento. Conteúdos postados em minutos podem permanecer acessíveis por anos, reaparecer em novas plataformas, ser salvos e reenviados incontáveis vezes. Mesmo que o acoso pare presencialmente, a memória digital continua reabrindo a ferida, atrasando a recuperação emocional da vítima.
Essa transformação obriga escolas, famílias e profissionais a pensar o bullying de maneira integrada, física e digitalmente. Ignorar o que acontece em chats, redes e jogos online é fechar os olhos para uma parte essencial do problema. Hoje, o pátio da escola também cabe dentro de um smartphone.
Perfis envolvidos: vítimas, agressores e espectadores
Para desmontar o algoritmo do medo, é fundamental compreender os diferentes papéis que se entrelaçam nas situações de acoso escolar. Não há apenas “vítimas” e “agressores”; há também um grupo muitas vezes negligenciado, mas decisivo: os espectadores.
As vítimas costumam viver um processo de isolamento progressivo, marcado por ansiedade, tristeza profunda e queda da autoestima. Muitas passam a acreditar que “merecem” o que acontece, ou que não têm valor suficiente para que alguém as defenda. O medo de represálias, a vergonha e a desconfiança em relação aos adultos dificultam a revelação do que estão sofrendo.
Os agressores, por sua vez, não são um bloco homogêneo de “vilões”. Em muitos casos, buscam reconhecimento social, tentam ganhar status dentro do grupo ou reproduzem modelos de violência que veem em casa, na mídia ou nas redes. Alguns apresentam também dificuldades emocionais não tratadas, baixa empatia ou precisam sentir controle sobre alguém para compensar outras frustrações. Conhecer os tipos de assédio ajuda a identificar essas dinâmicas.
Os espectadores ocupam um lugar estratégico. Seu silêncio, risos, reações online, partilhas e até a simples escolha de “não se meter” funcionam como combustível do acoso. Muitos jovens não se veem como cúmplices, pensam que “apenas estão vendo” ou que “não é problema deles”, mas, na prática, sua atitude decide se a violência encontra resistência ou um palco.
Por isso, uma das linhas centrais defendidas por Luengo e por especialistas em convivência escolar é focar na reeducação desse terceiro grupo. Trabalhar competências socioemocionais, empatia, coragem cívica, capacidade de pedir ajuda e de apoiar colegas em situação de vulnerabilidade é tão importante quanto intervir diretamente sobre vítimas e agressores.
Tecnologia como amplificador: da foto ao deepfake
No contexto atual, a tecnologia não é boa nem má por si só: é um espelho de quem a utiliza. Em mãos maduras, pode ser ferramenta de criatividade, aprendizagem e conexão; em mãos imaturas e sem orientação, transforma-se em arma de alta precisão para o acoso escolar.
A inteligência artificial (IA) levou o bullying a um novo patamar de sofisticação. O que antes exigia conhecimentos avançados de edição ou programação hoje pode ser feito com poucos cliques em aplicativos acessíveis a qualquer adolescente. Entre os riscos mais inquietantes estão os deepfakes, áudios falsos e bots de assédio automatizado.
Os deepfakes permitem criar imagens manipuladas, colocando o rosto de uma colega em cenas degradantes ou de teor sexual sem que a pessoa jamais tenha posado para isso. Para a vítima, ver sua própria imagem em situações íntimas que nunca viveu é devastador, gerando vergonha intensa, medo de exposição e sensação de perda total de controle sobre seu corpo e sua reputação. O vínculo com o assédio sexual torna esse uso da IA ainda mais pernicioso.
As ferramentas de clonagem de voz fazem algo semelhante com o som. Com poucos segundos de gravação, já é possível gerar áudios falsos que imitam a voz de alguém, fazendo parecer que essa pessoa disse frases humilhantes, comentários racistas ou confissões íntimas. Distribuídos em grupos de turma, esses áudios podem destruir vínculos de confiança e deixar a vítima em posição de ridículo. ajuda a antecipar e reagir.
Há ainda o acoso automatizado por bots. Alguns sistemas são capazes de gerar dezenas ou centenas de mensagens de ódio em pouco tempo, dando à vítima a impressão de que “todo mundo” está contra ela. Mesmo que parte dessas contas seja falsa, o impacto emocional de ver uma enxurrada de insultos é imenso.
O principal perigo desse uso da IA é a desumanização. Ao interpor uma máquina entre si e a vítima, o agressor tende a distanciar-se do sofrimento real que está causando. Tudo passa a parecer um “jogo de filtros”, comandos e efeitos especiais, como se a dor do outro fosse apenas mais um recurso digital sem consequência.
Dados recentes: a dimensão estrutural do problema na Espanha
Os números mais recentes sobre acoso escolar e ciberbullying na Espanha mostram que não se trata de episódios isolados, mas de um problema estrutural. De acordo com o relatório de 2025 da Fundação ANAR e da Fundação Mutua Madrileña, 12,3% dos estudantes afirmam que há casos de bullying ou ciberacoso em seu entorno, com tendência de aumento em relação ao ano anterior.
O acoso presencial se mantém relativamente estável, em torno de 6,5%, mas as formas digitais e mistas crescem impulsionadas pelo uso massivo de tecnologias. Isso significa que muitos casos já não acontecem apenas nos corredores ou pátios, mas se prolongam ou nascem diretamente em grupos de mensagens, redes sociais e jogos online.
Outro estudo de referência, realizado pela Universidade Complutense de Madrid, estima que cerca de 220 mil estudantes são vítimas de acoso na Espanha. Esse número reforça a ideia de que o problema atravessa diferentes tipos de escolas, regiões e contextos socioeconômicos, exigindo respostas de política pública, não só ações isoladas de centros mais sensibilizados.
Vinte anos após a aprovação das primeiras leis específicas contra o bullying, o balanço é ambivalente. Por um lado, houve avanços inegáveis: maior visibilidade do tema, criação de protocolos, linhas telefônicas de ajuda, formação inicial de docentes, inclusão do tema em currículos de convivência. Por outro, persistem lacunas significativas na aplicação efetiva dessas medidas.
É nesse ponto que a análise de Luengo é especialmente incisiva. Ele defende que não basta ter normas; é preciso garantir tempo, recursos, acompanhamento e compromisso contínuo dos centros. Quando os protocolos não saem do papel ou se limitam a uma investigação formal, sem verdadeira abordagem educativa e reparadora, correm o risco de se transformar em burocracia vazia.
Protocolos, planos e seus limites: “mais tutoria e menos remendos”
As duas últimas décadas trouxeram uma proliferação de protocolos de atuação diante do acoso escolar e do ciberbullying. Em teoria, quase todo centro educativo espanhol dispõe hoje de procedimentos para detectar, registrar, investigar e intervir em casos suspeitos. Mas a distância entre o papel e a prática ainda é grande.
Em declarações à imprensa especializada em educação, Luengo tem insistido na necessidade de “mais tutoria e menos remendos”. Ou seja, menos respostas reativas e apressadas quando o conflito já explodiu, e mais trabalho sistemático de prevenção, acompanhamento emocional e construção de vínculos saudáveis desde o início da escolaridade.
Os protocolos, por si só, não resolvem o problema se os professores não recebem formação adequada, se não há tempo na agenda para a ação tutorial ou se a equipe diretiva vê o acoso apenas como ameaça reputacional. Quando o objetivo é “evitar escândalo” em vez de proteger e reparar, as vítimas acabam novamente silenciadas e os agressores, pouco responsabilizados.
Uma resposta educativa completa precisa contemplar várias dimensões: acolhimento humanizado da vítima, intervenção específica com quem agride, envolvimento dos espectadores, diálogo com as famílias, coordenação com serviços de saúde mental quando necessário e medidas de restauração da convivência (reparação do dano, pedidos de desculpas, reconciliação quando possível e seguro).
Nesse sentido, ganha relevância o papel dos profissionais de saúde que, ao detectar sinais de ciberbullying em seus pacientes, podem e devem comunicar a situação ao centro escolar. Modelos de comunicação interinstitucional recomendam que, em casos de ciberacoso, o colégio seja informado sempre, e em casos de grooming, especificamente se o agressor for colega da vítima.
Responsabilidade compartilhada: escola, famílias e serviços de saúde
O combate ao algoritmo do medo exige coordenação real entre escola, família e sistema de saúde. Nenhum desses atores, isoladamente, consegue oferecer uma resposta suficientemente sólida para quebrar o ciclo do acoso.
Quando um centro de saúde identifica um caso de ciberacoso que afeta um estudante, o procedimento recomendado é informar formalmente a direção da escola. Em comunicados-modelo, profissionais sanitários apelam à responsabilidade dos centros educativos para que ativem seus protocolos, planejem intervenções específicas e garantam acolhimento, cuidado, apoio e escuta ativa à vítima.
Esse tipo de comunicação reforça a ideia de que a escola não pode limitar-se a “observar de longe” o que acontece nos celulares dos alunos. Pelo contrário, deve assumir que, ainda que parte do acoso ocorra fora do horário letivo, seus efeitos recaem sobre a convivência, o rendimento escolar e a saúde emocional do grupo.
As famílias, por sua vez, precisam ser parceiras e não apenas espectadores indignados quando algo acontece. Isso implica dialogar com os filhos sobre o uso de tecnologia, supervisionar apps instalados, estabelecer limites claros, ensinar a denunciar conteúdos ofensivos e procurar ajuda profissional sem medo de estigma quando percebem sofrimento intenso.
Do lado dos serviços de saúde mental, o acompanhamento da vítima inclui não só tratar sintomas (ansiedade, depressão, insônia, somatizações), mas também fortalecer habilidades sociais, reconstruir a autoestima, trabalhar a culpa indevida e criar um plano de segurança para situações de risco (especialmente quando há ideação suicida).
Prevenção: alfabetização digital, empatia e canais de denúncia
Enfrentar o acoso potencializado pela tecnologia requer uma estratégia preventiva em vários níveis. Não basta ensinar a usar um tablet; é preciso educar para compreender o impacto ético, emocional e social de cada clique.
Um primeiro eixo é a alfabetização digital crítica. Crianças e adolescentes precisam saber o que é um deepfake, como imagens e áudios podem ser manipulados, por que nem tudo o que circula nas redes é real e como reagir se se tornarem alvo de conteúdos falsos. Quando entendem que algo pode ter sido fabricado, o pânico diminui e aumenta a capacidade de pedir ajuda.
Outro pilar é a chamada “Regra de Ouro Digital”: não gerar nem compartilhar nada que não se teria coragem de dizer cara a cara. É uma forma simples, mas poderosa, de lembrar que a IA, os filtros e o aparente anonimato não apagam a responsabilidade pessoal. Cada mensagem tem consequências, mesmo que seja enviada “apenas por zoeira”.
A supervisão de ferramentas e aplicativos também é fundamental. Pais e educadores precisam conhecer que tipos de apps de edição de fotos, geração de texto, voz ou vídeo estão instalados nos dispositivos dos menores. Muitos serviços de “roasting” baseados em IA, por exemplo, não possuem filtros adequados para uso por crianças e adolescentes e podem estimular discursos de ódio e humilhação.
Por fim, os colégios devem contar com canais de denúncia claros, acessíveis e confiáveis. Isso inclui protocolos atualizados que mencionem explicitamente o mau uso da IA e das redes como falta grave, mecanismos de comunicação anônima quando necessário, e o compromisso público de que qualquer relato será levado a sério, investigado e acompanhado.
A mensagem de fundo, compartilhada por especialistas como Luengo e por iniciativas de cidadania digital, é que a IA deve ser aliada da criatividade e do conhecimento, não verdugo da integridade. Educar, acompanhar e estar presente é a chave para desativar o medo e recuperar a tecnologia como espaço seguro de crescimento.
Quando escola, família e profissionais de saúde entendem que o acoso escolar é uma ferida profunda e não um simples conflito entre alunos, a forma de atuar muda por completo. O algoritmo do medo, alimentado por silêncios, telas e protocolos vazios, só se enfraquece com vínculos humanos fortes, escuta autêntica, coragem para intervir e uma educação digital que una responsabilidade e empatia. Transformar a forma como encaramos o bullying não é um luxo pedagógico, é uma condição para que crianças e adolescentes possam realmente crescer sem que a escola – nem o mundo online – se tornem um campo minado de medo.