Atenção à saúde mental na Europa: desafios, dados e ações

Última actualización: abril 30, 2026
  • A União Europeia impulsiona uma abordagem global da saúde mental, com financiamento dedicado, partilha de boas práticas e integração em múltiplas políticas públicas.
  • Os dados europeus mostram baixa cobertura e grandes desigualdades de acesso, especialmente em transtornos comuns, uso de substâncias e grupos marginalizados.
  • Projetos e programas da UE reforçam formação, combate ao estigma e apoio a grupos vulneráveis, incluindo refugiados e deslocados da Ucrânia.
  • Especialistas defendem expandir a força de trabalho, integrar a saúde mental na atenção primária e padronizar dados para cumprir as metas da OMS.

atenção à saúde mental na Europa

A saúde mental está no centro do debate público em toda a Europa, não só porque os problemas emocionais e psicológicos estão a aumentar, mas também porque as respostas dos sistemas de saúde continuam a ser muito desiguais entre países, grupos sociais e tipos de transtornos. As últimas iniciativas da União Europeia e os dados de investigação mostram um cenário complexo: mais atenção política e financiamento, mas também enormes lacunas de acesso e de qualidade no cuidado.

Ao mesmo tempo, cresce a consciência de que não existe saúde sem saúde mental e de que depressão, ansiedade, psicoses ou transtornos por uso de substâncias têm um impacto gigantesco na economia, na coesão social e na vida quotidiana de milhões de pessoas. Nesse contexto, a UE está a impulsionar um novo enfoque global, enquanto estudos recentes, como a revisão sistemática publicada em The Lancet Regional Health – Europe, expõem com detalhes onde estão as principais brechas de cobertura, quem fica para trás e que mudanças estruturais são necessárias.

O novo enfoque global da União Europeia para a saúde mental

Em 2022, no discurso sobre o estado da União, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a saúde mental passaria a ser uma prioridade estratégica, com o compromisso de lançar uma grande iniciativa específica em 2023. Esse compromisso concretizou‑se a 7 de junho de 2023, quando a Comissão adotou a Comunicação sobre uma abordagem global da saúde mental, concebida para ajudar os Estados‑Membros a reagir com rapidez e de forma coordenada aos desafios crescentes neste campo.

Esta Comunicação marca o ponto de partida de um novo modelo europeu, integral e orientado para a prevenção, elaborado após um amplo processo de consulta com governos, peritos, organizações da sociedade civil e cidadãos. A ideia é abandonar uma visão limitada à esfera clínica e reconhecer que a saúde mental está profundamente ligada a políticas de emprego, educação, investigação, digitalização, urbanismo, cultura, ambiente e clima, procurando equiparar o peso da saúde mental ao da saúde física nas decisões públicas.

A estratégia apoia‑se em políticas já existentes e traduz‑se em vinte iniciativas emblemáticas, que reúnem oportunidades de financiamento no valor de 1 230 milhões de euros. Estes recursos visam apoiar, direta e indiretamente, os Estados‑Membros na implementação de reformas estruturais, programas de prevenção, serviços comunitários e projetos inovadores que coloquem a pessoa no centro do cuidado em saúde mental.

Durante a Semana Europeia da Saúde Mental de 2024, a Comissão publicou o quadro de monitorização desta abordagem global, um instrumento pensado para acompanhar de forma periódica o progresso das ações previstas. Este quadro foi atualizado novamente por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental de 2024, reforçando o compromisso de avaliar não só as iniciativas comunitárias, mas também aquilo que está a acontecer a nível nacional.

A implementação desta abordagem depende de ações concretas conduzidas pelos Estados‑Membros e pelas partes interessadas, com coordenação horizontal da Comissão e em estreita colaboração com parceiros internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e a UNICEF. O objetivo é que as mudanças não fiquem no papel, mas se traduzam em melhorias palpáveis para os cidadãos e para os sistemas de saúde.

Estado da saúde mental na Europa: dados, custos e impacto social

Os relatórios mais recentes traçam um retrato preocupante da saúde mental na Europa. A edição de 2023 dos perfis de saúde nacionais, elaborados no âmbito da iniciativa “Estado da Saúde na UE” pela OCDE e pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde, oferece uma visão sintética da situação em todos os Estados‑Membros da UE, bem como na Noruega e na Islândia, pondo em evidência fraquezas estruturais e tendências alarmantes.

Múltiplas crises sucessivas agravaram um cenário já frágil: os efeitos devastadores da pandemia de COVID‑19, a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, as consequências do aquecimento global e da perda de biodiversidade, o desemprego, o aumento do custo de vida e a pressão constante do meio digital e das redes sociais. Tudo isto deteriorou ainda mais uma saúde mental que já era frágil, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens adultos.

Os problemas de saúde mental distribuem‑se de forma desigual entre grupos populacionais. A depressão, por exemplo, é mais frequente nas mulheres e nas pessoas com níveis de rendimento e escolaridade mais baixos, refletindo o peso dos determinantes sociais, económicos e de género. Estes dados reforçam a necessidade de olhar para a saúde mental não só como uma questão clínica, mas também como um tema de equidade e justiça social.

Uma sondagem recente do Eurobarómetro sobre saúde mental, realizada em outubro de 2023, revelou que 46 % dos europeus relataram ter vivido algum problema emocional ou psicossocial no último ano, incluindo sintomas depressivos, ansiedade ou sofrimento psicológico relevante. Ainda mais preocupante é o facto de uma em cada duas pessoas que lidaram com um problema de saúde mental não terem procurado ajuda profissional, seja por estigma, falta de informação, barreiras de acesso ou ausência de serviços adequados.

Mesmo antes da pandemia, os dados já eram alarmantes: cerca de uma em cada seis pessoas na UE tinha algum problema de saúde mental, com um impacto económico estimado em cerca de 4 % do PIB. O relatório “Health at a Glance” de 2018 calculava que o custo total dos problemas de saúde mental ultrapassava os 600 mil milhões de euros nos 27 Estados‑Membros da UE e no Reino Unido, somando custos diretos em saúde, perda de produtividade e efeitos sociais indiretos.

A atualização de 2022 de “Health at a Glance” mostrou que quase um em cada dois jovens europeus reporta necessidades de saúde mental não satisfeitas, e que, em vários países, a proporção de jovens com sintomas depressivos duplicou ou mais do que duplicou durante a pandemia. Estes números deixam claro que não atuar agora significa aceitar cicatrizes duradouras nas gerações mais novas, com repercussões a longo prazo em educação, emprego e participação social.

Perante este quadro, os peritos sublinham a necessidade de continuar a investir fortemente nos serviços de saúde mental, nas reformas dos sistemas de saúde, na formação e contratação de profissionais especializados, bem como em políticas para combater o estigma e a discriminação associados aos transtornos mentais. A prioridade passa por reforçar a prevenção, abordando fatores de risco comportamentais e determinantes sociais, ambientais e comerciais, além de lançar iniciativas ambiciosas de promoção da saúde mental que ajudem a cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e as metas da OMS para doenças não transmissíveis.

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Principais ações e ferramentas europeias em saúde mental

A saúde mental é uma prioridade de longa data para a Comissão Europeia, que, nos últimos 25 anos, tem apoiado uma grande variedade de projetos e ações para melhorar o bem‑estar mental e o acesso a cuidados em toda a União. Hoje, esse esforço concentra‑se em várias frentes complementares: boas práticas, a iniciativa “Mais Saudáveis Juntos”, desenvolvimento de capacidades, combate ao estigma e financiamento específico.

Um dos pilares centrais é o Portal Europeu de Boas Práticas, que facilita a identificação, recolha, partilha e transferência de intervenções eficazes entre países. Em 2018, os Estados‑Membros escolheram a saúde mental como uma área prioritária deste portal, reconhecendo a necessidade de aprender com o que funciona noutros contextos e de adaptar essas experiências de forma sistemática.

Em 2019, foi apresentada aos governos nacionais uma lista inicial de boas práticas em saúde mental, que depois foi classificada de acordo com as prioridades de cada país. Entre as três mais bem avaliadas, duas transformaram‑se em ações conjuntas financiadas através do terceiro Programa de Saúde (plano de trabalho de 2020): a reforma do sistema belga de saúde mental, centrada no reforço de serviços comunitários orientados para o utilizador, e o programa austríaco de prevenção do suicídio em múltiplos níveis.

Esta ação conjunta, conhecida como ImpleMENTAL, reúne atualmente 21 Estados‑Membros e conta com uma contribuição financeira de 5,4 milhões de euros. A Oficina Regional para a Europa da OMS apoia os esforços de formação e de desenvolvimento de capacidades desta iniciativa através de um acordo específico de 11 milhões de euros, financiado pelo programa UEproSalud 2022, com o objetivo de integrar a saúde mental em todas as políticas.

Outro projeto relevante é o Best, liderado pela European Alliance Against Depression, que inclui a implementação da ferramenta digital iFightDepression, concebida para o auto‑manejo da depressão ligeira a moderada. Dez Estados‑Membros participam desta iniciativa, apoiada por 1,6 milhões de euros da Comissão, mostrando como as soluções digitais podem complementar a oferta de serviços presenciais.

Para responder melhor às necessidades de crianças e jovens, destacam‑se as iniciativas Icehearts Europe e Let’s Talk About Children, focadas em promover o bem‑estar e a resiliência desde cedo, através de apoio educativo, social e comunitário. Em julho de 2023, foi lançada uma nova convocatória para identificar boas práticas e práticas promissoras especificamente em saúde mental, da qual resultaram 29 experiências validadas, agora disponíveis no repositório europeu de boas práticas no Portal de Boas Práticas.

Entre 11 e 13 de março de 2024, realizou‑se um evento online em que os responsáveis por estas 29 práticas apresentaram em detalhe os seus projetos aos representantes dos Estados‑Membros interessados em transferi‑los para os seus contextos nacionais. Este tipo de encontro promove um verdadeiro “laboratório europeu” de inovação, onde se pode adaptar, testar e escalar intervenções com base em evidência.

A iniciativa “Mais Saudáveis Juntos” e o foco nas doenças não transmissíveis

A abordagem global da UE para a saúde mental é fortemente apoiada pela iniciativa “Mais Saudáveis Juntos”, lançada em junho de 2022 como a estratégia da Comissão para enfrentar as doenças não transmissíveis de forma integrada. A ideia é ajudar os Estados‑Membros a desenhar e aplicar políticas eficazes que reduzam a carga destas doenças, melhorem o bem‑estar geral e diminuam as desigualdades em saúde.

Dentro desta iniciativa, “saúde mental e transtornos neurológicos” são um dos cinco eixos principais, ao lado de outras grandes áreas como doenças cardiovasculares ou cancro. Após um amplo processo de co‑criação com países e partes interessadas, foram definidas ações de alto impacto ao longo de todo o percurso da pessoa: da promoção do bem‑estar e prevenção proativa até à inclusão social de quem vive com condições de longa duração.

As atividades em saúde mental no âmbito de “Mais Saudáveis Juntos” organizam‑se em torno de quatro áreas prioritárias: criar condições favoráveis e fortalecer a resiliência integrando a saúde mental em todas as políticas; promover o bem‑estar mental e prevenir transtornos; melhorar o acesso atempado e equitativo a serviços de alta qualidade; e proteger direitos, assegurar inclusão social e combater o estigma.

Já existem ações em curso em cada um destes domínios, com continuidade prevista pelo menos até 2027. Isto inclui campanhas, projetos locais e reformas organizacionais, numa lógica de longo prazo que pretende consolidar mudanças estruturais em vez de intervenções pontuais.

Formação, capacitação e combate ao estigma em saúde mental

Para que as reformas sejam sustentáveis, não basta financiar projetos: é essencial reforçar capacidades e competências. Por isso, a Comissão Europeia desenvolveu, em parceria com a OMS e a OCDE, vários projetos destinados a oferecer assistência técnica personalizada a cada país, apoiar a transferência de boas práticas e criar programas de formação multidisciplinar.

Um exemplo recente é o projeto EU‑PROMENS, iniciado em janeiro de 2024, que oferece formação abrangente em saúde mental a profissionais de saúde, professores, educadores e assistentes sociais, além de programas de intercâmbio para especialistas em saúde mental. Este projeto, financiado pelo programa UEproSalud com 9 milhões de euros, procura criar uma base comum de competências e incentivar a colaboração transnacional.

Ao mesmo tempo, a luta contra o estigma e a discriminação continua a ser uma prioridade. Apesar da maior sensibilização pública, muitas pessoas continuam a evitar pedir ajuda por medo de julgamentos, exclusão ou consequências no trabalho e nas relações pessoais. Uma das vinte iniciativas emblemáticas da abordagem global da UE dedica‑se precisamente a enfrentar este estigma de forma estruturada.

Para apoiar os Estados‑Membros neste desafio, a Comissão criou um grupo de redação específico no seio do subgrupo de saúde mental do Grupo de Peritos em Saúde Pública. Este grupo trabalhou no desenvolvimento de um pacote de apoio da UE contra a estigmatização e a discriminação relacionadas com a saúde mental, apresentado conjuntamente com a OMS e a organização Mental Health Europe no Dia Mundial da Saúde Mental, a 10 de outubro de 2024.

Financiamento europeu e foco em grupos vulneráveis

O programa UEproSalud é hoje a principal fonte de financiamento direto da UE para projetos em saúde mental. Nos últimos três anos, mais de 30 milhões de euros foram destinados a iniciativas que abordam os aspetos de saúde pública relacionados com a saúde mental, incluindo reformas de sistemas, programas de promoção e projetos comunitários.

No programa de trabalho de 2023, foram reservados 18,5 milhões de euros especificamente para promoção da saúde mental e prevenção de problemas. Deste montante, 6 milhões de euros destinam‑se a uma ação conjunta entre autoridades nacionais para enfrentar desafios comuns em saúde mental; 4,5 milhões de euros apoiam projetos de organizações e outras partes interessadas focados em promoção, prevenção e gestão de transtornos mentais.

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Grande parte destas ações concentra‑se em grupos em situação de maior vulnerabilidade, como migrantes, refugiados, comunidades Roma e pessoas deslocadas da Ucrânia. Além disso, 8 milhões de euros foram atribuídos a projetos que abordam os desafios de saúde mental de pacientes e sobreviventes de cancro, bem como de seus cuidadores e familiares, reconhecendo o impacto psicológico da doença oncológica.

No programa de trabalho de 2024, está prevista nova ajuda financeira para uma ação conjunta destinada a promover uma abordagem global e preventiva em saúde mental, com 6 milhões de euros adicionais para os Estados‑Membros e mais 2 milhões de euros para projetos de partes interessadas que apoiem os esforços nacionais. A gestão destes projetos cabe à Agência Executiva Europeia para a Saúde e o Digital (HADEA).

Ao nível da governação, a Comissão mantém uma colaboração estreita com os Estados‑Membros e com uma rede ampla de atores, através do subgrupo de saúde mental do Grupo de Peritos em Saúde Pública, que aconselha sobre a implementação das iniciativas emblemáticas e informa sobre o progresso das ações nacionais ligadas à abordagem global.

Além disso, existe uma rede específica sobre saúde mental na Plataforma de Política de Saúde da UE, onde se destaca o grupo “Mental Health in All Policies”, coordenado pela organização Mental Health Europe. Esta rede, aberta a partes interessadas dentro e fora do setor da saúde, funciona como espaço de intercâmbio de conhecimento e formulação de recomendações políticas para integrar a saúde mental em todas as áreas de decisão.

Refugiados, deslocados da Ucrânia e saúde mental em contextos de crise

Pessoas refugiadas e deslocadas, sobretudo aquelas que fogem de conflitos armados, enfrentam um risco particularmente elevado de sofrimento psicológico. Traumas, perdas, separação familiar, incerteza sobre o futuro e barreiras linguísticas podem desencadear ou agravar transtornos como depressão, ansiedade, stress pós‑traumático ou abuso de substâncias.

Face à guerra na Ucrânia, a Comissão mobilizou 31,2 milhões de euros do programa UEproSalud para apoiar pessoas deslocadas que necessitam urgentemente de apoio psicossocial e de cuidados em saúde mental. Uma parte significativa deste montante foi canalizada através de um acordo com a Federação Internacional da Cruz Vermelha, para prestar assistência direta às pessoas provenientes da Ucrânia e ajudar‑lhes a gerir o trauma vivido.

Para além deste apoio, foram financiados quatro projetos específicos com uma contribuição total de 3 milhões de euros: MESUR, Peace of Mind, Well‑U e U‑Rise. Estes projetos centram‑se em oferecer apoio em saúde mental às pessoas deslocadas da Ucrânia e em melhorar o bem‑estar psicológico de outras populações migrantes e refugiadas, criando respostas adaptadas às suas realidades culturais e sociais.

A Comissão também apoia a formação em saúde de migrantes através de cursos online e outros materiais, disponíveis em plataformas especializadas financiadas no âmbito do terceiro Programa de Saúde. Estes recursos destinam‑se a profissionais de saúde e de serviços sociais, ajudando‑os a identificar melhor necessidades específicas e a reduzir barreiras linguísticas e culturais no acesso aos cuidados.

Impacto da COVID‑19 na saúde mental e respostas da UE

A pandemia de COVID‑19 provocou um choque sem precedentes nos sistemas de saúde mental europeus. O relatório “Health at a Glance: Europe 2020” já alertava para o aumento acentuado de stress, ansiedade e depressão entre a população em geral, combinação de medo da infeção, isolamento social, perda de rendimentos e incerteza económica.

Os jovens e as pessoas com menos recursos económicos foram considerados grupos de risco elevado, tanto pelo impacto direto das medidas de confinamento nas suas rotinas e relações sociais, como pelo aumento da precariedade laboral e da insegurança habitacional. Além disso, muitos serviços de saúde mental foram interrompidos ou reduzidos, afetando especialmente pessoas com transtornos pré‑existentes.

Poucos meses após o início da pandemia, a Direção‑Geral de Saúde e Segurança Alimentar da Comissão criou um espaço específico de intercâmbio sobre saúde mental relacionado com a COVID‑19 na Plataforma de Política de Saúde. Coordenado por Mental Health Europe, este espaço virtual e biblioteca de recursos permitiu que organizações de saúde e agentes sociais partilhassem práticas, ferramentas e conhecimentos, com foco nos grupos mais vulneráveis, como pessoas em situação de sem‑abrigo, idosos e indivíduos com patologias prévias.

No âmbito do programa de trabalho UEproSalud 2021, foram atribuídos 750 000 euros à implementação no terreno de boas práticas que respondessem de forma direta aos desafios de saúde mental da pandemia. Dois projetos, MENTALITY e STEP‑IN, trabalham na sensibilização para o impacto da COVID‑19 em comunidades vulneráveis e na aplicação de intervenções baseadas em evidência para lhes oferecer apoio adequado.

A Comissão também quis reconhecer iniciativas comunitárias inspiradoras através do Prémio de Saúde da UE de 2021, dedicado precisamente ao impacto da COVID‑19 na saúde mental. A cerimónia de entrega de prémios teve lugar a 4 de maio de 2022, e as iniciativas vencedoras e finalistas foram reunidas numa publicação específica, para facilitar a difusão e possível replicação noutros contextos.

Día Mundial da Saúde, ciência e saúde mental: um olhar de 2026

Todos os anos, a 7 de abril, celebra‑se o Dia Mundial da Saúde, instituído em 1948 na primeira Assembleia Mundial da Saúde para marcar a criação da OMS e chamar a atenção global para temas cruciais de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde trabalha para melhorar tanto a saúde física como a saúde mental em todos os países, insistindo na importância de sistemas robustos de prevenção, promoção, cuidado e reabilitação.

Na edição de 2026, o lema “Juntos pela saúde. Apoiar a ciência” destaca a importância da colaboração científica para proteger a saúde das pessoas, dos animais, das plantas e do planeta, dentro da abordagem “Uma só saúde”. Esta campanha anual sublinha os avanços científicos, mas também a necessidade de cooperação multilateral para transformar evidência em ação concreta.

A OMS apela a governos, cientistas, profissionais de saúde e ao público em geral para que apoiem a ciência, comprometam‑se com dados e factos para proteger a saúde, reconstruam a confiança na ciência e na saúde pública e apostem em soluções baseadas em evidência para um futuro mais saudável. Neste quadro, a saúde mental é entendida como um componente essencial e inseparável da saúde global.

Em linha com este enfoque, ganha relevância um estudo de revisão sistemática publicado em The Lancet Regional Health – Europe, que analisa 45 estudos com 198 estimativas sobre cobertura de serviços de saúde mental e lacunas de tratamento na Região Europeia. As conclusões são contundentes: as falhas na cobertura de cuidados para adultos são generalizadas e profundas, particularmente nos transtornos comuns como depressão e ansiedade, bem como nos transtornos relacionados ao consumo de substâncias.

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Cobertura heterogénea por tipo de transtorno mental

A revisão sistemática mostra uma variação enorme na cobertura de tratamento entre países e entre transtornos. Historicamente, muitos sistemas de saúde europeus privilegiaram os transtornos mentais graves, como as psicoses, em detrimento dos transtornos mentais comuns e dos problemas ligados ao uso de álcool e outras substâncias, o que se reflete claramente nas estatísticas de acesso.

Para os transtornos psicóticos, vários países reportam níveis muito elevados de cobertura de serviços. A Croácia, por exemplo, registou uma cobertura de 99 % em 2017, e a Finlândia, de 97 %, embora exista uma variação enorme entre países e estes números reflitam apenas a disponibilidade de serviços, não necessariamente a adequação, continuidade ou qualidade da atenção prestada.

O contraste com os transtornos mentais comuns é chocante. No caso do transtorno depressivo maior, os autores analisaram a proporção de pessoas que recebem um tratamento minimamente adequado, definido como pelo menos um mês de medicação mais quatro visitas, ou oito sessões de psicoterapia com qualquer profissional. As taxas variam de menos de 10 % em países como Bulgária, Tajiquistão e Turcomenistão, até cerca de 35 % na Alemanha e 36,1 % na Chéquia.

Para os transtornos de ansiedade, a cobertura de tratamento oscila entre 7,3 % na Bulgária e 47,1 % na Suécia, sendo que não havia estimativas publicadas para 40 países europeus, o que evidencia uma carência dramática de dados. Nos transtornos por consumo de substâncias, a maioria das estimativas fica abaixo de 15 %, e 42 países não dispunham de qualquer informação fiável sobre a cobertura.

Em relação ao transtorno de défice de atenção e hiperatividade (TDAH) em adultos, a situação é ainda mais problemática: a cobertura situa‑se geralmente abaixo de 10 %, e as poucas estimativas disponíveis são quase sempre desatualizadas. Em cinco países (França, Alemanha, Itália, Portugal e Bélgica), a cobertura estimada para TDAH em adultos foi de 0 % na década de 2000, indicando que praticamente não havia reconhecimento ou tratamento estruturado desta condição.

Os dados sobre Espanha, por exemplo, são escassos e imprecisos para muitos indicadores. As estimativas apontam para uma cobertura em torno de 15 % para depressão, cerca de 30 % para transtornos de ansiedade, aproximadamente 5 % para transtornos por uso de substâncias e cerca de 3 % para TDAH em adultos, confirmando uma lacuna evidente entre necessidade e acesso efetivo.

Profundas desigualdades de acesso e grupos marginalizados

A revisão dá especial destaque às inequidades de acesso em grupos marginalizados. Minorias sexuais, refugiados, pessoas em situação de sem‑abrigo e indivíduos com baixo estatuto socioeconómico enfrentam obstáculos adicionais, desde barreiras estruturais e discriminação até estigma institucional e barreiras linguísticas, o que amplia ainda mais as disparidades em saúde mental.

Os autores relatam que, em alguns casos, as lacunas de cobertura entre grupos marginalizados e a população geral ultrapassam 80 %. No caso de pessoas sem‑abrigo na região de Paris, apenas cerca de 3 % das pessoas francófonas com transtornos psicóticos recebiam algum tipo de tratamento, um dado que ilustra o fosso entre necessidades extremas e resposta dos serviços.

Em escala europeia, a taxa de cobertura de serviços para transtornos mentais em adultos é, no geral, baixa e insuficiente. Em alguns países, a percentagem de pessoas com um transtorno mental que recebem qualquer tipo de tratamento é praticamente nula e, mesmo onde há mais oferta, a proporção de pessoas que recebem um tratamento minimamente adequado é muito menor.

No caso específico de Espanha, estima‑se que apenas uma em cada três pessoas com algum transtorno mental receba qualquer tratamento, e menos de 12 % tenham acesso a cuidados considerados adequados. Em depressão maior, cerca de 28 % recebem algum tipo de ajuda, mas só 18 % com uma abordagem cuidadosa; em ansiedade, as cifras rondam 29,5 % e 12 %, respetivamente. Nos transtornos por uso de substâncias e álcool, apenas 5,2 % dos adultos recebem tratamento adequado.

Esta combinação de baixa cobertura, grande heterogeneidade e falta de dados põe em risco a meta da OMS de aumentar em 50 % a cobertura de serviços até 2030. Sem sistemas robustos de monitorização harmonizada, torna‑se difícil saber o ponto de partida real, acompanhar progressos e identificar onde as políticas estão ou não a funcionar.

Recomendações: reforçar a oferta, estimular a procura e padronizar dados

Os investigadores da revisão sistemática defendem a implementação urgente de sistemas de avaliação e registo comparáveis entre países, com definições padronizadas e indicadores comuns para medir cobertura, qualidade e resultados em saúde mental. A falta de dados, em muitos casos, impede avaliar se as reformas em curso aproximam ou afastam a Europa dos objetivos internacionais.

Do lado da oferta, é crucial expandir a força de trabalho em saúde mental e melhorar a organização dos serviços. Isso inclui contratar mais profissionais, investir na sua formação, descentralizar a oferta e integrar a saúde mental na atenção primária, permitindo a delegação de tarefas para não especialistas devidamente treinados, sem perder qualidade de cuidado.

Os autores ressaltam também a importância de uma atenção centrada na pessoa e orientada para a recuperação, em que os usuários participem ativamente nas decisões sobre tratamento e sejam informados sobre diferentes opções baseadas em evidência. A inclusão da saúde mental na cobertura universal de saúde em todos os países europeus é vista como uma condição básica para reduzir barreiras financeiras.

Do lado da procura, é fundamental desenvolver campanhas educativas sobre saúde mental e serviços disponíveis, normalizando o diálogo público sobre sofrimento psicológico e sintomas emocionais. Ao mesmo tempo, é preciso combater o estigma cultural e institucional que impede muitas pessoas de procurar ajuda ou de manter adesão ao tratamento.

Em síntese, os especialistas concluem que só será possível melhorar o cenário atual se forem adotadas ações específicas que abordem simultaneamente disponibilidade, aceitabilidade, acessibilidade económica e eficácia dos cuidados. Sem este pacote completo de mudanças – reforçado por dados sólidos e monitorização contínua – a Europa corre o risco de manter grandes parcelas da população sem o apoio em saúde mental de que necessitam.

Quando se observa o conjunto de iniciativas da UE, as análises da OMS e da OCDE e os resultados de estudos como o publicado em The Lancet Regional Health – Europe, fica claro que o continente vive um momento de viragem: por um lado, há mais reconhecimento político, financiamento e partilha de boas práticas; por outro, persistem lacunas profundas de cobertura, enormes desigualdades entre grupos sociais e países, e uma urgente necessidade de reforçar serviços, dados e participação dos próprios usuários para que a saúde mental se torne, de facto, uma prioridade real em toda a Europa.