- O setor da saúde contribui com cerca de 5% das emissões globais, exigindo a transição para sistemas resilientes e baixos em carbono.
- A medição da pegada de carbono, especialmente no Escopo 3, é essencial para implementar melhorias em eficiência energética e gestão de resíduos.
- A descarbonização deve ser vista como um investimento que reduz custos operacionais e aumenta a segurança do paciente.
- A resiliência infraestrutural em áreas vulneráveis é crucial para manter a assistência básica durante desastres climáticos.

Quando pensamos em cuidar da saúde, a primeira imagem que vem à cabeça é o consultório, a sala de cirurgia ou a UTI. No entanto, a verdadeira proteção da vida vai muito além do ato clínico; ela passa pela forma como climatizamos os hospitais, como lidamos com os resíduos, a escolha dos materiais e até a maneira como as pessoas se deslocam para receber atendimento. É impossível separar a cura do paciente do estado do planeta onde ele vive.
Atualmente, vivemos um cenário onde as mudanças climáticas já batem à porta das urgências. O aumento de insolações, crises respiratórias e problemas de saúde mental gera uma pressão enorme sobre os sistemas públicos, tornando as populações mais frágeis, como os idosos, ainda mais vulneráveis. Com a estimativa da OMS de que centenas de milhares de mortes adicionais ocorrerão anualmente devido ao clima, fica claro que a ação climática não é apenas uma escolha ecológica, mas uma necessidade assistencial urgente.
A Responsabilidade do Setor Sanitário
O setor da saúde enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo que trata as vítimas da crise ambiental, ele contribui para o problema. Estima-se que a saúde seja responsável por cerca de 5% das emissões globais de gases de efeito estufa. Isso acontece devido ao alto consumo de energia, às frotas de transporte, aos suprimentos e a toda a complexa cadeia de valor envolvida na assistência.
Nesse contexto, a Aliança para a Ação Transformadora sobre Clima e Saúde (ATACH) defende a criação de sistemas resilientes e baixos em carbono. Como bem pontuou Maria Neira, ex-direta da OMS, transformar a gestão climática em prioridade é uma oportunidade incrível para melhorar a prevenção, a equidade e o bem-estar geral da população. Afinal, se a missão da medicina é não causar dano, descarbonizar é a extensão lógica desse princípio ético.
Estratégias para a Transformação Hospitalar
Para que a mudança saia do papel, o primeiro passo fundamental é a medição. Não dá para gerir o que não se mede. Estudos indicam que, em muitos casos, até 62% da pegada de carbono hospitalar provém do chamado “Escopo 3”, que engloba as compras, o transporte de insumos e a gestão de resíduos. Ter dados precisos permite que os gestores saibam exatamente onde intervir para obter o melhor resultado ambiental e financeiro.
A transição para um hospital eficiente envolve diversas frentes práticas que se alinham aos princípios do desenvolvimento sustentável:
- Implementação de autoconsumo fotovoltaico e climatização inteligente.
- Reabilitação energética de edifícios para reduzir desperdícios.
- Digitalização de processos e promoção da mobilidade sustentável.
- Uso racional de medicamentos e redução drástica de plásticos.
É importante notar que a descarbonização não deve ser vista como um gasto extra, mas sim como um investimento estratégico. Ao reduzir custos operacionais e melhorar a eficiência, o hospital torna-se mais seguro e sustentável a longo prazo.
Exemplos Reais de Sucesso
Já existem iniciativas que provam que essa mudança é viável. Na Galícia, o SERGAS traçou uma meta ambiciosa para reduzir 60% das emissões até 2030. O Hospital Álvaro Cunqueiro, por exemplo, conseguiu que a energia solar cubra 100% do consumo em horas de sol. Outros centros, como a Fundação Sanitaria Mollet, mostraram que é possível reduzir drasticamente as emissões mesmo aumentando a atividade assistencial, desde que haja governança e cultura interna.
No campo da farmacologia e anestesia, a mudança de fármacos com alto impacto climático também traz resultados. A substituição de inaladores com propelentes potentes e a redução do uso de óxido nitroso e desflurano em hospitais de Madrid demonstram que pequenas mudanças na prescrição podem evitar toneladas de CO2 na atmosfera.
Resiliência em Comunidades Vulneráveis
Além de emitir menos, os hospitais precisam ser capazes de resistir. Fenômenos meteorológicos extremos afetam principalmente zonas rurais e remotas, onde a desigualdade e saúde se manifestam com mais força. Um exemplo marcante foi a reconstrução de centros de saúde no Peru, onde se aplicaram designs modulares e flexíveis para garantir que a infraestrutura suporte sismos e inundações sem interromper o atendimento.
A adoção de ventilação natural e sistemas de drenagem sustentáveis garante que, mesmo em crises energéticas ou climáticas, a população continue tendo acesso a cuidados básicos. A resiliência, portanto, é o que separa um hospital eficiente de um hospital verdadeiramente seguro para a comunidade.
O Papel Essencial das Pessoas
Nenhuma tecnologia ou painel solar funciona sem o fator humano. O núcleo da saúde são os profissionais que lidam com a vulnerabilidade diariamente. Para que a descarbonização aconteça, é vital ouvir as vozes de quem está no chão da unidade, pois eles sabem onde o sistema falha e como as melhorias podem ser aplicadas na prática.
O apoio de engenheiros e consultores multidisciplinares é fundamental, mas o impulso deve vir da cultura organizacional. Iniciativas como a rede Sanidade #PorElClima ajudam a conectar experiências e transformar boas práticas isoladas em padrões globais de atendimento.
A jornada para zerar as emissões do setor da saúde é, acima de tudo, um compromisso com a ética e a sobrevivência humana. Ao integrar a eficiência energética, a adaptação climática e a gestão consciente de recursos, construímos um sistema que não apenas cura doenças, mas protege a vida de forma integral, garantindo que as infraestruturas permaneçam operacionais mesmo sob pressão extrema, assegurando a saúde das pessoas através da preservação do planeta.


