Patrimônio biocultural: características e exemplos

Patrimônio biocultural: características e exemplos

O patrimônio biocultural são os conhecimentos, crenças e práticas das comunidades indígenas e rurais relacionadas ao seu ambiente natural. Inclui a biodiversidade do referido ambiente e o uso que as comunidades fazem dele, bem como a paisagem que é construída no processo.

Essa herança surge em comunidades tradicionais que têm uma estreita relação com a natureza. Nesse processo, eles desenvolvem um certo equilíbrio com o ambiente, com base em práticas e conhecimentos passados ​​de geração em geração.

É uma herança coletiva, geralmente altamente influenciada por um certo conjunto de valores espirituais profundamente enraizados. Além disso, inclui um conhecimento profundo dos recursos naturais existentes e é promovido um uso intensivo deles.

A herança biocultural geralmente entra em conflito com a visão ocidental dominante. Nesse sentido, é permanentemente ameaçada pela tendência moderna de rápidas mudanças no modo de vida e no meio ambiente.

Portanto, a herança biocultural deve ser protegida em benefício da humanidade, tanto por seu valor prático quanto espiritual.

Características do  patrimônio biocultural

O patrimônio biocultural é o conjunto de conhecimentos, práticas, tradições e crenças que certas comunidades desenvolveram em estreita relação com seu ambiente natural.

Comunidades tradicionais

Nasce em comunidades tradicionais, longe de centros urbanos ligados às culturas dominantes. Geralmente, são comunidades indígenas, camponesas ou locais dedicadas a atividades tradicionais com baixo impacto tecnológico.

Para a consolidação do patrimônio biocultural e sua sobrevivência, é necessário algum isolamento mínimo dessas comunidades em relação à cultura dominante.

Caráter coletivo

O patrimônio biocultural é coletivo no sentido de que é desenvolvido no processo de vida de uma comunidade. Em geral, as principais atividades da comunidade são realizadas coletivamente, aumentando e mantendo esse patrimônio.

Valores espirituais

A força da herança biocultural está acima de tudo em seu alto conteúdo de valores espirituais. Estes, devido às necessidades de sobrevivência da comunidade, estão intimamente ligados ao respeito ao meio ambiente natural.

Conhecimentos e práticas tradicionais

O patrimônio biocultural inclui uma série de conhecimentos e práticas vinculadas às necessidades materiais e espirituais da comunidade. Esse conhecimento é caracterizado por uma estreita relação com o mundo espiritual e natural.

Caráter conservador

Essa herança é de natureza conservadora, pois o estilo de vida dessas comunidades determina alguma resistência à mudança. A força do patrimônio biocultural é precisamente o fato de ser transmitido sem muita mudança de uma geração para outra.

Base jurídica

O patrimônio biocultural é desenvolvido no nível legal, com base no direito aos usos e costumes da comunidade. Nos últimos tempos, a sociedade tomou consciência do valor do patrimônio biocultural, razão pela qual, em muitos casos, suas regras se tornaram lei escrita.

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Estreita relação com a natureza

São comunidades que vivem em ambientes naturais pouco alterados pelo homem ou que ainda mantêm um alto componente natural.

Nesse contexto, a comunidade obtém todos ou grande parte de seus recursos diretamente da natureza. Portanto, a necessidade de um conhecimento profundo do meio ambiente para sobreviver se desenvolveu.

Valor da paisagem

O patrimônio biocultural é desenvolvido dentro de um território específico, que faz parte do próprio patrimônio. Nesses casos, as comunidades moldaram a paisagem como conseqüência de suas práticas tradicionais ao longo de centenas ou milhares de anos.

No entanto, o nível de impacto é relativamente baixo e a paisagem natural faz parte do seu patrimônio. Por outro lado, dada a dependência da comunidade em relação ao meio ambiente, o valor atribuído à paisagem se torna relevante.

Biodiversidade e equilíbrio ecológico

Por serem comunidades com um longo relacionamento com seu ambiente natural, elas desenvolveram laços estreitos com sua biodiversidade. Eles geralmente dependem disso para sobreviver, fornecendo alimentos, remédios, roupas, materiais de construção e outros recursos.

Portanto, eles tendem a ter um conhecimento tradicional da biodiversidade existente. Da mesma forma, suas práticas tradicionais foram adaptadas para manter o equilíbrio ecológico.

Conservação da agrodiversidade

A sobrevivência de muitas variedades de espécies cultivadas que não são amplamente utilizadas depende em grande parte de fazer parte do patrimônio biocultural de uma determinada comunidade. Isso ocorre porque o agronegócio se concentra na promoção de um número restrito de variedades e híbridos.

Se essas comunidades desaparecem ou abandonam sua biocultura, essas variedades tradicionais deixam de ser plantadas e desaparecem em pouco tempo.

Produtos bioculturais

 As comunidades tradicionais fizeram valiosas contribuições para a humanidade como parte de sua herança biocultural. Isso está particularmente relacionado à conservação de práticas e conhecimentos relacionados ao uso medicinal e nutricional dos recursos naturais.

Assim, muitas comunidades domesticaram e selecionaram várias espécies de plantas, preservando sua variabilidade genética. Por outro lado, eles desenvolveram e preservaram práticas agrícolas e artesanais que hoje têm valor como formas alternativas de produção.

Conflito com a visão dominante

Devido ao seu caráter tradicional, conservador e periférico em relação à cultura dominante, o patrimônio biocultural está em conflito com a sociedade dominante. A sociedade ocidental baseia-se na crescente exploração dos recursos naturais e na incorporação de territórios e comunidades no mercado capitalista.

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Portanto, é exercida pressão social, econômica, política e cultural constante contra a permanência do patrimônio biocultural das comunidades tradicionais.

Apropriação de conhecimento

Outro problema levantado é a apropriação do conhecimento gerado pelas comunidades e que fazem parte do patrimônio da biocultura. Em muitos casos, a contribuição dessas comunidades não é reconhecida nem recebe benefícios de seus aplicativos.

Isso é especialmente relevante quando esse conhecimento está relacionado a produtos naturais de valor medicinal.

Exemplos de  patrimônio biocultural

– As comunidades quíchuas do parque de batata no Peru

Este é um projeto realizado por 5 comunidades quíchuas organizadas na Associação ANDES, localizada em Cusco, Peru. Aqui, essas comunidades herdadas do patrimônio biocultural inca cultivam cerca de 1.500 variedades de batata ( Solanum tuberosum ).

O projeto visa alcançar o desenvolvimento agrícola e florestal sustentável, com base nos conhecimentos e práticas tradicionais indígenas. De fato, essa experiência contribuiu significativamente para o desenvolvimento do conceito de patrimônio biocultural.

Biodiversidade

O território onde este projeto é desenvolvido possui a maior diversidade genética de batatas, hospedando inúmeras espécies de batatas selvagens. Portanto, representa um banco de germoplasma ou material genético de valor incomparável para o aprimoramento dessa cultura.

Herança biocultural e mundo moderno

O projeto tenta harmonizar a conservação do patrimônio biocultural, incluindo o germoplasma de batata, com as realidades do mundo moderno. Para esse fim, essas comunidades estão desenvolvendo produtos orgânicos para marketing e você tem projetos de turismo.

– O grupo étnico Yanomami na Amazônia

O povo Yanomami vive na floresta amazônica, onde seu território cobre parte da fronteira entre Venezuela e Brasil. O modo de vida deles é basicamente o que eles tradicionalmente levam há milhares de anos.

Essas comunidades vivem da caça, pesca, coleta e agricultura tradicional baseada no conuco, um sistema de áreas rotativas multiculturais.

Habitação e crenças

Suas casas ou shabonos são multifamiliares, construídas com materiais coletados da selva e têm a forma de um cone truncado. A própria estrutura da casa está intimamente relacionada ao seu mundo espiritual.

Seus mitos e crenças estão ligados ao ambiente que os cerca, refletindo especialmente a rica biodiversidade da selva. Na cultura Yanomami, considera-se que existem seres invisíveis na selva relacionados às plantas e animais do meio ambiente.

Uso de plantas

Os Yanomami usam mais de 500 espécies de plantas da floresta amazônica, como alimentos, roupas, construção de ferramentas e casas, além de medicamentos. Seu patrimônio biocultural é objeto de estudo com diversos interesses, dentre eles o de conhecer o uso medicinal que eles dão a muitas plantas.

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– As comunidades camponesas no sul do estado de Aragua, na Venezuela

As comunidades indígenas não apenas desenvolvem um patrimônio biocultural, como também ocorrem em comunidades rurais intimamente ligadas ao seu ambiente. Um exemplo disso são as comunidades camponesas que habitam o estado sulista de Aragua, Venezuela.

O mesmo em seu trabalho diário durante centenas de anos desenvolveu um conhecimento particular de seu ambiente natural. Isso é especialmente relevante no caso do uso de plantas silvestres, especialmente como medicamentos.

Uso de plantas

Em um estudo realizado para descobrir o patrimônio biocultural dessas comunidades no campo vegetal, foram identificadas 243 espécies de plantas. Destes, mais de 50% são utilizados como plantas medicinais, o restante é utilizado em alimentos, construção, artesanato e outros usos.

Variedades ameaçadas e práticas culinárias

Um exemplo do papel do patrimônio biocultural na conservação da diversidade é encontrado nessas comunidades. Aqui é mantida a tradição de fazer pão de forno (doce tradicional na forma de pequenos fios) com base na variedade de milho chamada “cariaco”.

Este doce é feito com a farinha desta variedade de milho, extrato de cana de açúcar (papel), manteiga e especiarias. O milho “cariaco” é cada vez mais escasso, porque foi deslocado do cultivo para plantar híbridos comerciais, portanto, essas comunidades ajudam a sua conservação.

Referências

  1. Argumedo, A. (2008). O parque da batata, Peru: conservando a agrobiodiversidade em uma área de patrimônio biocultural indígena andina. In: Thora Amend, T., Brown, J. e Kothari, A. (Edis.). Paisagens Protegidas e Valores da Agrobiodiversidade.
  2. Patrimônio biocultural. Visto em 24 de fevereiro de 2020. Retirado de: https://biocultural.iied.org/
  3. Grupo de diversidade Biocultural e Territórios. O valor do patrimônio biocultural no desenvolvimento de territórios sustentáveis ​​e a redução das desigualdades. Visto em 25 de fevereiro de 2020. Retirado de: http://www.bioculturaldiversityandterritory.org/documenti/262_300000176_elvalordelpatrimoniobiocultural.experienciasdeincidencia2016.pdf
  4. Rede Latino-Americana de Defesa do Patrimônio Biocultural. Visto em 24 de fevereiro de 2020. Retirado de: https://redlatambiocultural.org/
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  6. Ruiz-Zapata, T., Castro, M., Jaramillo, M., Lastres, M., Torrecilla, P., Lapp, M., Hernández-Chong, L. e Muñoz, D. (2015). Catálogo ilustrado de plantas úteis de comunidades do sul do estado de Aragua. Ernstia. Edição especial.
  7. Swiderska. K. (2006). Protegendo o conhecimento tradicional: Uma estrutura baseada em leis consuetudinárias e patrimônio biocultural. Documento da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Endógeno e Diversidade BioCultural, 3-5 de outubro de 2006, Genebra.

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