- A organização do mercado de trabalho e a qualidade do emprego são determinantes centrais das desigualdades em saúde.
- Profissionais de saúde enfrentam precarização, baixos salários, insegurança e violência, o que afeta também a qualidade do cuidado.
- Desigualdades de gênero, renda e raça moldam tanto as condições de trabalho quanto o acesso efetivo aos serviços de saúde.
- Reduzir a inequidade em saúde exige emprego decente, proteção social forte e sistemas públicos universais e bem financiados.

La relación entre trabajo, desigualdad y salud se ha convertido en uno de los temas más candentes de la salud pública contemporánea, especialmente en un mundo atravesado por crisis económicas, precarización laboral y profundización de las brechas sociales. En las últimas dos décadas, la investigación internacional ha ido dejando claro que no basta con mirar lo que pasa dentro del puesto de trabajo: hay que observar el tipo de empleo, la seguridad que ofrece, la protección social asociada y el modelo económico que lo enmarca.
Aunque existe una producción científica muy rica sobre salud laboral, desigualdades y determinantes sociales de la salud, todavía persisten vacíos importantes: se estudia poco lo que ocurre en países de renta media y baja, se profundiza menos de lo necesario en las causas estructurales de la desigualdad y se analizan insuficientemente las políticas públicas capaces de reducir la inequidad en salud. Este artículo reúne de forma detallada ese cuerpo de conocimiento, lo entrelaza con ejemplos concretos de México y España y propone una mirada amplia sobre cómo el trabajo y la protección social moldean la salud y la vida cotidiana.
Transformações globais, emprego e desigualdades em saúde
Nas últimas décadas, o processo de globalização, impulsionado por políticas neoliberais, alterou profundamente o mundo do trabalho, desde os indicadores macroeconômicos até o dia a dia de cada trabalhador e trabalhadora. A liberalização dos mercados, a flexibilização de direitos e a segmentação dos mercados de trabalho e a divisão do trabalho criaram contextos muito diferentes entre países, mas com um traço comum: o aumento das desigualdades em renda, segurança laboral e acesso à proteção social.
Os estudos coordenados por redes internacionais, como a Rede de Condições de Emprego (EMCONET), apoiada pela OMS e pela OIT, mostraram que não é possível entender as desigualdades em saúde olhando apenas para os fatores de risco dentro do local de trabalho (ruído, agentes químicos, ergonomia, etc.). É preciso incorporar um marco conceitual que relacione tipo de emprego, estabilidade, direitos trabalhistas, proteção social, género, classe social e políticas económicas com os perfis de morbimortalidade e de qualidade de vida nos diferentes países.
Esse marco global classificou os países segundo as características de seus mercados de trabalho – por exemplo, sistemas com forte proteção social e sindicatos atuantes versus contextos marcados por informalidade massiva e ausência de direitos – e analisou como essas configurações se traduzem em riscos desiguais de adoecer e morrer. Estudos de caso em diversos continentes permitiram documentar situações muito distintas: desde trabalhadores altamente protegidos em economias de bem-estar robustas até grandes contingentes sem contrato, sem aposentadoria e sem acesso regular a serviços de saúde.
Um ponto central desses estudos é que a forma como o emprego é organizado funciona como determinante social de saúde de primeira ordem. Mercados de trabalho segmentados – com uma “elite” de empregos estáveis e protegidos e uma massa de postos precários e informais – tendem a reproduzir e aprofundar desigualdades já existentes de classe, género, raça e território. Isso se expressa tanto em diferenças de expectativa de vida e mortalidade quanto na incidência de doenças infecciosas, crónicas não transmissíveis, transtornos mentais e acidentes de trabalho.
A chamada “grande recessão” e as crises econômicas subsequentes funcionaram como teste de estresse para esses sistemas, evidenciando que cortes em gasto social, reformas trabalhistas regressivas e precarização das relações de trabalho costumam aumentar a insegurança de renda e o sofrimento psíquico, além de ampliar brechas no acesso aos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, tais crises abriram debates sobre reformas institucionais e políticas públicas capazes de reduzir a inequidade em saúde, reforçando a importância de estados de bem-estar fortes e políticas de emprego decente.
Questão social, desigualdade e processos saúde-doença-cuidado
A questão social – isto é, a forma como as sociedades lidam com pobreza, exclusão e desigualdades estruturais – está intimamente ligada aos processos de saúde, doença, atenção e cuidado. Uma ampla revisão documental, com foco na produção global dos últimos dez anos, permite destrinchar duas perguntas fundamentais: como desigualdades se expressam na distribuição de fenômenos de saúde-doença-cuidado? E como trabalho e proteção social influenciam esses mesmos processos?
Do ponto de vista das desigualdades contemporâneas, observam-se correlações claras entre níveis de desigualdade socioeconômica e indicadores de saúde, como expectativa de vida, mortalidade geral e por causas específicas, incidência de doenças infecciosas e prevalência de doenças crônicas não transmissíveis. Sociedades mais desiguais tendem a apresentar piores resultados em todos esses campos, sobretudo para os grupos em situação mais vulnerável.
As brechas no acesso à filiação e à atenção sanitária são um dos mecanismos centrais que convertem desigualdade social em desigualdade em saúde. Sistemas baseados em seguros contributivos atrelados ao emprego formal deixam de fora amplos segmentos da população com vínculos precários, informais ou intermitentes. Isso gera grupos inteiros que dependem de redes públicas subfinanciadas ou de serviços privados de baixa qualidade, incidindo em atraso de diagnósticos, falta de continuidade do cuidado e maior carga de sofrimento evitável.
As transformações recentes do mercado de trabalho – como flexibilização, terceirização, “pejotização” e expansão de contratos por honorários – reconfiguram a exposição a riscos de saúde. A pressão por metas, por sua vez, mantém as mulheres concentradas em ocupações mais desvalorizadas, muitas vezes ligadas ao cuidado, com menores salários, contratos mais frágeis e dupla ou tripla jornada, o que se relaciona com níveis elevados de sofrimento psíquico, fadiga crônica e adoecimento específico.
Essas mudanças impactam diretamente indicadores como acidentes de trabalho, lesões por esforço repetitivo e transtornos mentais relacionados ao trabalho. A intensificação do ritmo produtivo, a sobrecarga de tarefas e a pressão por metas em contextos com pouca proteção social convertem-se em terreno fértil para burnout, ansiedade, depressão e abuso de substâncias, frequentemente invisibilizados pelas estatísticas oficiais.
Trabalho em saúde: emprego decente, precarização e riscos
O setor saúde oferece um caso emblemático da interseção entre trabalho, desigualdade e saúde: ao mesmo tempo em que profissionais da saúde são agentes centrais do cuidado, eles próprios sofrem com condições laborais precárias, jornadas extenuantes e carência de proteção social adequada.
Este caso ilustra dos capas de desigualdad: la vivida por el profesional de salud, con baja renta, inseguridad laboral y ausencia de derechos, y la de los pacientes, que sufren demora en procedimientos esenciales por fallas estructurales en el sistema. La sensación de impotencia de quien estudió tanto tiempo para no poder ejercer plenamente sus habilidades quirúrgicas traduce bien cómo la precarización afecta tanto al trabajador como a los usuarios del servicio.
Según la Organización Internacional del Trabajo (OIT), un empleo es considerado “decente” cuando garantiza ingresos suficientes para cubrir necesidades básicas, promueve el desarrollo de competencias, ofrece estabilidad, protección social y condiciones seguras de trabajo. La existencia de contrato formal y de mecanismos de protección social reduce la incertidumbre y la volatilidad de ingresos de las familias, además de favorecer la continuidad de los estudios de los niños y aumentar la capacidad de los hogares de enfrentar crisis financieras o problemas de salud.
No obstante, en muchos países de renta media, el empleo decente sigue siendo la excepción en el sector salud. En contextos como México, a pesar del reconocimiento oficial de la importancia de fortalecer el sistema y de la expansión de recursos para crear plazas y regularizar trabajadores por honorarios, persistieron movilizaciones importantes del personal de salud, como las protestas de 2023 en diversas regiones, denunciando salarios bajos, falta de insumos, sobrecarga e inseguridad.
Escassez de profissionais, sobrecarga e desigualdade territorial
Em termos de disponibilidade de recursos humanos, muitos países latino-americanos têm déficit de pessoal de saúde em relação aos parâmetros internacionais. No México, por exemplo, havia cerca de 9,4 pessoas trabalhando em assistência sanitária e trabalho social complementar para cada mil habitantes, valor bem inferior ao de países vizinhos como Colômbia (16,3) e Costa Rica (16).
A carência é ainda mais crítica na enfermagem. Em 2020, o México contava com aproximadamente 2,9 enfermeiras e enfermeiros por mil habitantes, enquanto a média dos países da OCDE era de 8,8 por mil. Em termos simples, isso significa que o país dispõe de pouco mais de um terço do contingente de enfermagem considerado adequado, o que se traduz em maior número de pacientes por profissional, menos tempo para cada usuário e níveis elevados de exaustão.
Essa escassez tem consequências diretas para a segurança e a qualidade do cuidado. Se imaginarmos uma professora recebendo o triplo de alunos ou um caixa de supermercado atendendo três vezes mais clientes, já pareceria uma situação complicada; no entanto, na saúde, esse “triplo” pode significar erros em medicação, atraso na detecção de agravamentos e falhas na vigilância de pacientes críticos, com risco real de vidas perdidas.
Além da carga quantitativa, o trabalho de enfermagem envolve tarefas de alto risco e grande responsabilidade: administrar medicamentos, monitorar sinais vitais, executar e ensinar procedimentos de higiene, registrar informações no prontuário, lidar com doenças contagiosas e pacientes em estado grave. A pandemia de covid-19 escancarou esse cenário, expondo esses profissionais a risco de infecção, sofrimento psíquico e jornadas extremas.
A distribuição territorial do pessoal de saúde agrava ainda mais as desigualdades. No México, em 2017, dezoito estados não alcançavam a densidade de profissionais recomendada pela OMS. Em termos práticos, isso significa que amplas regiões simplesmente não têm capacidade de prestar serviços suficientes à sua população. A disparidade é maior entre áreas urbanas e rurais: apenas cerca de 6,5% dos enfermeiros e enfermeiras trabalhavam em localidades rurais, apesar da necessidade evidente de atenção nessas zonas.
Diferenças salariais, subsistemas e precarização contratual
Os salários dos profissionais de saúde variam de forma importante entre países e dentro dos próprios sistemas nacionais. Em comparação com colegas de países como Chile e Costa Rica, médicos gerais e especialistas mexicanos ganham menos, e o mesmo se observa no campo da enfermagem, em que uma enfermeira hospitalar no México recebia, em 2020, aproximadamente dois terços do salário de uma profissional chilena.
Dentro do sistema mexicano, os rendimentos dependem do nível do trabalhador (A, B ou C) e do subsistema ao qual está vinculado (por exemplo, IMSS, ISSSTE ou estruturas que sucederam o Insabi). Em 2021, os empregados do IMSS, em geral, tinham salários mais baixos que os de outros subsistemas, embora possuíssem benefícios de previdência bastante generosos, como boas pensões de aposentadoria.
As diferenças não são apenas entre subsistemas, mas também dentro de um mesmo hospital. Durante as manifestações de 2023, veio à tona que anestesistas com funções idênticas, atuando em um hospital da Secretaria de Salud da Ciudad de México, podiam receber entre doze mil e dezoito mil pesos, dependendo do tipo de vínculo. Os que ganhavam menos geralmente não eram sindicalizados e tinham menos benefícios, o que revela um processo de segmentação interna baseado em formas contratuais distintas.
Historicamente, até o início dos anos 2000, predominavam no setor público as vagas permanentes com benefícios amplos e direitos trabalhistas consolidados. Contudo, a partir daí, generalizou-se uma lógica de negociação individual de contratos, muitas vezes sem participação efetiva dos sindicatos, abrindo espaço para maior precarização: vínculos temporários, ausência de seguro social, menor proteção em caso de adoecimento e aposentadorias incertas.
Entre 2019 e 2020, quase um quinto do pessoal médico no México recebía até dois salários mínimos, e cerca de uma em cada dez pessoas não tinha benefícios sociais nem seguro médico. Isso mostra o paradoxo de profissionais responsáveis pela saúde coletiva, que, porém, não contam com garantias mínimas para sua própria segurança social.
Expansão do setor privado e precariedade invisibilizada
Outro fenômeno relevante é a crescente utilização de serviços privados de saúde, em grande parte como resposta às limitações e filas do setor público. Em 2021, quase seis em cada dez pessoas no México buscaron atención en proveedores privados, como consultorios en residencias de médicos, clínicas anexas a farmacias, hospitales privados o edificios con consultorios particulares.
Nesse universo, a precarização trabalhista é ainda mais frequente que no setor público. Dados da Pesquisa Nacional de Ocupação e Emprego (2019-2020) indicam que pouco mais da metade dos médicos trabalhava no setor público, enquanto o restante atuava no privado. Entre estes, aproximadamente uma quinta parte ganhava até dois salários mínimos sem contrato escrito, um quarto não possuía benefícios sociais e quase metade não tinha seguro de saúde.
A expansão de consultórios em farmácias, por exemplo, combina acesso relativamente rápido para usuários com condições frágeis para os profissionais: salários baixos, metas de produtividade implícitas ligadas à venda de medicamentos, pouca autonomia clínica e nenhuma garantia de carreira. Esses arranjos reforçam a segmentação: quem pode paga por planos ou clínicas de alto padrão; quem não pode, usa serviços privados baratos e precários ou enfrenta longas filas no sistema público.
Ao mesmo tempo, a terciarização e a multiplicação de vínculos simultâneos levam muitos profissionais a acumular empregos, com jornadas que se estendem noite adentro, plantões intercalados e pouco tempo de descanso, o que afeta tanto a saúde física (distúrbios do sono, doenças cardiovasculares) quanto a saúde mental (ansiedade, irritabilidade, desgaste emocional).
Essa lógica de múltiplos empregos e ausência de estabilidade também dificulta a organização coletiva, enfraquecendo sindicatos e associações profissionais, que perdem capacidade de negociação frente a instituições públicas e empresas privadas. Assim, a fragmentação contratual se converte em mecanismo poderoso de reprodução da desigualdade no interior das próprias categorias de saúde.
Violência, insegurança e exercício da profissão
A violência ligada ao crime organizado acrescenta uma camada dramática às condições de trabalho na saúde em países marcados por conflitos e presença forte de grupos armados. No México, desde pelo menos 2011, médicos e outros profissionais têm abandonado localidades inteiras por medo de extorsão, sequestro ou assassinato.
Houve diversas mobilizações do gremio médico em estados como Chihuahua (por exemplo, Ciudad Juárez), Morelos, Durango, Veracruz, Jalisco e na própria Cidade do México, com marchas e protestos exigindo condições mínimas de segurança para exercer a profissão. Esses episódios deixam claro que, sem garantia de integridade física, não há política de interiorização de profissionais que funcione de maneira sustentável.
Em 2022, o governo federal mexicano tentou responder a essa situação oferecendo vagas em áreas rurais com contratação mais rápida e salários mais elevados. No entanto, muitos profissionais argumentaram que a insegurança, aliada à falta de insumos e equipamentos, continuava sendo um forte fator de desestímulo para aceitar tais postos. A percepção é de que não basta pagar um pouco mais se a vida do trabalhador e de sua família permanece em risco.
A violência também impacta indiretamente o cuidado em saúde: unidades fecham ou reduzem horários, ambulâncias evitam determinadas rotas, equipes deixam de realizar visitas domiciliares em zonas perigosas. Tudo isso se traduz em pior acesso à assistência para populações já vulneráveis, aprofundando o círculo vicioso entre desigualdade social, insegurança e desproteção sanitária.
Para muitos profissionais, sobretudo jovens, a combinação de precarização contratual, sobrecarga de trabalho e medo da violência leva à migração interna para grandes centros urbanos ou até à emigração para outros países. Isso alimenta a fuga de cérebros de regiões periféricas, mantendo territórios inteiros em situação de desassistência crônica.
Desigualdade de género no trabalho em saúde e no acesso ao cuidado
No caso mexicano, as médicas apresentam taxas de emprego mais baixas (cerca de 68,2%) em comparação aos médicos (77%). Uma proporção significativa delas acaba se dedicando em tempo integral ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado (em torno de 14,5% das mulheres médicas, frente a 5,3% dos homens). O peso da maternidade e da divisão desigual das tarefas do lar leva muitas profissionais a optar por jornadas parciais ou a sair totalmente do mercado de trabalho formal.
Além disso, mulheres enfrentam obstáculos específicos para ingressar em especialidades como cirurgia geral e traumatologia, áreas associadas a plantões longos, urgências noturnas e disponibilidade quase permanente, vistas como incompatíveis com as expectativas sociais de que elas assumam o cuidado da casa e dos filhos. A percepção de que essas áreas “não são para mulheres” atua como barreira objetiva e subjetiva, desestimulando estudantes desde a graduação.
No setor privado, as disparidades de género ficam ainda mais evidentes. Aproximadamente metade das médicas (cerca de 49,9%) ganha menos de dois salários mínimos, enquanto apenas cerca de 10,9% dos médicos se encontram nessa faixa salarial. Em termos de carga horária, algo como dois terços das mulheres vivem situações de trabalho em tempo parcial involuntário ou de excesso de horas, contra cerca de uma quinta parte dos homens, evidenciando um padrão de maior insegurança e sobrecarga para elas.
Os estereótipos de género também afetam os homens na enfermagem. Enfermeiros tendem a ter menor probabilidade de emprego que suas colegas mulheres, provavelmente porque persistem concepções de que a enfermagem seria uma “profissão feminina”. Além disso, o número de médicas e enfermeiros que procura trabalho ou atua em ocupações fora da área da saúde é maior do que o de médicos e enfermeiras na mesma situação, o que revela obstáculos adicionais para grupos que fogem ao modelo tradicional masculino-médico/feminino-enfermeira.
Do lado do acesso aos serviços, a desigualdade de género também pesa, como mostra o caso espanhol. Em pesquisas recentes, observou-se que as mulheres renunciam com maior frequência a tratamentos por motivos econômicos, especialmente em áreas não totalmente cobertas pelo sistema público, como odontologia, fisioterapia e saúde mental. Quase metade das mulheres entrevistadas declarou não poder ir ao dentista por falta de dinheiro, em comparação a proporções claramente menores entre os homens.
Desigualdade económica, saúde e experiências cotidianas na Espanha
A realidade espanhola mostra de forma clara como desigualdades económicas e sociais se refletem na saúde física e mental. Segundo o relatório “Vivir la desigualdad 2025”, elaborado por uma organização de referência em justiça social, a percepção de saúde e o acesso a cuidados variam fortemente conforme a situação de renda e outros marcadores sociais.
A maioria da população pesquisada declara ter uma percepção positiva de sua saúde física e mental. No entanto, entre as pessoas que “não chegam ao fim do mês”, ou seja, que lutam para cobrir suas despesas básicas, cerca de 21,3% avaliam sua saúde física como “má”, proporção aproximadamente duas vezes superior à média da amostra. Isso indica que a escassez de recursos financeiros está diretamente associada a um sentimento de pior bem-estar físico.
As renúncias a cuidados por razões económicas aparecem com força em áreas como saúde mental, atendimento odontológico e fisioterapia. Terapias psicológicas, por exemplo, muitas vezes exigem pagamento direto ou seguros complementares, tornando-se inacessíveis para quem vive com orçamentos apertados. Esse quadro é particularmente preocupante num contexto de aumento de transtornos de ansiedade e depressão.
Ao mesmo tempo, quase quatro em cada dez pessoas entrevistadas na Espanha possuem seguro privado de saúde, e cerca de um quarto conta com seguro odontológico, proporções que vêm crescendo em relação a anos anteriores. Essa tendência indica a coexistência de dois circuitos de cuidado: um público, pressionado por listas de espera, e outro privado, acessível a quem tem renda suficiente para contratar planos, o que reforça desigualdades preexistentes.
As desigualdades não são apenas de renda, mas também sociais e raciais. Pessoas racializadas, por exemplo, relatam com maior frequência ter de reduzir o consumo de alimentos frescos, como carne, peixe, frutas e verduras (cerca de 49%) em comparação com pessoas não racializadas (em torno de 36,7%). Essa diferença, ainda que pareça um detalhe do orçamento doméstico, tem implicações importantes em termos de nutrição, risco de doenças crônicas e bem-estar geral.
Desigualdade de género e acesso à saúde na Espanha
No contexto espanhol, a desigualdade de género também marca fortemente a experiência de saúde. As mulheres são mais propensas a renunciar a determinados cuidados porque não conseguem arcar com os custos. Aproximadamente 44,9% delas declararam não poder ir ao dentista devido a dificuldades financeiras, frente a 37,4% dos homens, revelando uma diferença expressiva.
Essa mesma lógica se repete em outros serviços especializados. As mulheres têm maior probabilidade de ficar sem fisioterapia, acompanhamento psicológico ou outros tratamentos considerados “complementares”, mas que na prática são essenciais para manter a qualidade de vida, sobretudo em situações de dor crônica, sobrecarga de cuidado familiar ou sofrimento emocional.
A combinação de rendas mais baixas, maior responsabilidade pelo cuidado de crianças e idosos e empregos mais precários empurra muitas mulheres a priorizar a saúde dos demais membros da família antes da sua. Isso leva a diagnósticos tardios, pior controle de doenças crônicas e maior sofrimento silencioso, com impacto tanto na vida pessoal quanto na participação no mercado de trabalho.
O aumento da contratação de seguros privados por parte de segmentos médios e altos, ao mesmo tempo em que grupos empobrecidos acumulam renúncias a cuidados, mostra como a saúde se converte em espelho direto da desigualdade social. A existência de um sistema público universal é um ponto de partida fundamental, mas, sem políticas redistributivas e mecanismos que assegurem o acesso efetivo e oportuno para todos, as brechas tendem a se aprofundar.
Organizações como a Oxfam Intermón ressaltam que enfrentar a pobreza passa, necessariamente, por enfrentar as desigualdades que a geram, incluindo aquelas que se manifestam no campo da saúde. Isso implica atuar simultaneamente em políticas fiscais, mercado de trabalho, proteção social e fortalecimento dos serviços públicos, sempre em diálogo com os movimentos sociais e com as pessoas diretamente afetadas.
Ao reunir evidências de diferentes países e contextos, fica claro que trabalho, desigualdade e saúde formam um triângulo indissociável. Mercados de trabalho precarizados, proteção social frágil, desigualdades de género e raça, violência e segmentação dos sistemas de saúde se combinam para produzir padrões de adoecimento profundamente injustos. Enfrentar esse cenário exige políticas de emprego decente, fortalecimento da saúde pública, redução das desigualdades económicas e promoção da equidade de género e racial, para que profissionais e usuários possam, de fato, construir vidas mais saudáveis e dignas.
