Reflexões de Hugo Mujica: criação, silêncio e beleza

Última actualización: abril 21, 2026
  • Hugo Mujica entende a criação como um novo nascimento contínuo, mais radical que o simples conhecer ou agir.
  • Sua reflexão retoma a memória sagrada da Grécia arcaica, a poiesis e o papel das Musas como mediação do ser.
  • Beleza, Páscoa e ressurreição aparecem como epifanias de um Deus que "nasce" sem cessar em nossa própria existência.
  • Seus poemas breves condensam tudo isso em imagens de silêncio, noite, vazio, entrega e presença do divino em cada vida.

reflexiones de Hugo Mujica

Hugo Mujica é daqueles autores que parecem falar baixo, mas ecoam lá no fundo da gente. Poeta, filósofo, sacerdote, pensador da espiritualidade e da linguagem, ele usa poucas palavras para abrir abismos de sentido. Suas reflexões atravessam mito, Bíblia, filosofia grega, mística cristã e experiência cotidiana, sempre rondando a mesma pergunta: o que é, afinal, criar, nascer, morrer e continuar nascendo dentro da própria vida?

Neste artigo em português vamos percorrer, com calma e em detalhe, algumas das grandes intuições presentes nas reflexões de Hugo Mujica. Vamos passar pela ideia de criação como segundo nascimento, pela memória sagrada da Grécia arcaica, pela relação entre poesia e verdade, pela beleza como epifania, pelo sentido da Páscoa e por uma série de poemas breves em que ele condensa sua visão de mundo. Tudo reescrito com outras palavras, num tom natural, para que você possa se aproximar desse universo sem precisar conhecer previamente sua obra em espanhol.

Criação e nascimento: quando criar é voltar a nascer

Para Mujica, o gesto criador – seja de um deus ou de um ser humano – é o acontecimento mais radical que pode existir. Pouco importa se foi um Deus que elaborou o homem à sua imagem, ou se foi o ser humano que projetou um deus parecido consigo: em ambos os casos, o traço decisivo atribuído ao divino é o poder de criar. Criar é o ato inaugural por excelência, o ponto em que humano e divino se tocam, onde ambos se confundem num mesmo fluxo de fecundidade.

Quando escreve, Mujica vive a criação como um modo de se descobrir – ou até de se inaugurar – de novo. Ele intui, pela própria experiência, que o conhecimento, a compreensão e até a ação não vão tão fundo quanto o criar. Criar vem antes do saber, é mais abissal que entender, mais definitivo que agir. No ato criador, algo de si – e ao mesmo tempo algo de todos – amanhece pela primeira vez, como se a escrita fosse um nascimento que se repete e, ainda assim, permanece único.

Por isso ele aproxima constantemente o gesto de criar ao ato de nascer. Em cada criação autêntica revivemos aquele instante inaugural que não lembramos, o momento em que, vindo do nada, fomos recebidos pela vida. Aquele primeiro “agora” sem memória, sem sombra, em que não existíamos e, de repente, começamos a ser. Criar, então, é reconectar-se com essa origem sem rosto, com o princípio que sustenta cada presente.

Todo ato criador nos instala num “lugar” que não é lugar, nesse vazio de onde tudo vem e para o qual tudo volta. É uma experiência de escuta: escutar o que está chegando em busca de um nome que o acolha. Daí o parentesco entre criação e nascimento: continuar criando é, para Mujica, continuar nascendo, não deixar que a existência se fixe, mas mantê-la sempre em trânsito, em vir-a-ser.

Ele chega a sugerir que a relação criativa é o vínculo mais decisivo que podemos estabelecer com o mistério do ser. Tão decisivo que não podemos controlá-lo, nem possuí-lo como técnica. A criatividade verdadeira é dom, pura gratuidade. Criar não é dominar o sentido da própria vida, é a forma mais radical de se deixar criar de novo, de entregar-se a algo que nos ultrapassa.

Poiesis: memória, mito e o canto das Musas

Mujica mergulha fundo no imaginário da Grécia arcaica para pensar a poesia como poiesis, isto é, criação, uma forma de textos recreativos. Diferente das grandes religiões monoteístas, os deuses gregos nunca se apresentaram por dogmas fixos ou escrituras sagradas com verdades definitivas. Não houve um “Moisés” ou um “Maomé” grego. Mesmo assim, a Grécia viveu talvez como nenhuma outra cultura a presença dos deuses como algo pulsante e onipresente.

Na visão que Mujica recupera, o sagrado grego não se separava da natureza: o divino era a própria physis, o modo de ser de tudo o que existe. “Tudo está cheio de deuses”, dizia Tales de Mileto. Não havia espaço verdadeiramente profano: toda a Grécia era, de certo modo, um grande templo. Nesse contexto surge a sacralidade das Musas, filhas de Zeus e da deusa Memória, Mnemosyne, que encarnam a ligação entre o mundo invisível e o mundo dos mortais.

Ele recorda um antigo hino a Zeus segundo o qual, depois de criar o mundo, o deus percebe que ainda falta algo para que a obra seja plena. Os deuses pedem então uma voz capaz de louvar e manifestar a magnificência da criação, e Zeus engendra as Musas, nascidas da união com Mnemosyne. A criação, sem ser louvada e revelada, permanece inacabada. Só ao ser cantada se mostra inteira, vindo à luz como verdade, como manifestação.

Aqui, a verdade – em grego, aletheia – não é um conceito abstrato, mas o próprio aparecer do ser, sua emergência em palavra, canto e celebração. As Musas tornam visível (e audível) aquilo que, de outro modo, ficaria oculto. Elas são a ponte entre origem e originado, entre essência e existência, entre mortais e imortais. O poeta, ao ser tocado por elas, torna-se intérprete da memória sagrada do ser.

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Curiosamente, na mitologia, as Musas têm voz mas não têm lábios; os homens, ao contrário, têm lábios, mas não possuem a verdadeira voz. Daí o pedido dos poetas na Ilíada: “dizei-me vós, Musas, que tudo sabeis, pois nós, mortais, só ouvimos ruídos”. Para os gregos, o canto poético exigia uma espécie de possessão divina, um entusiasmo (manía) que vinha de fora. Mnemosyne preside essa inspiração: a poesia é uma forma de vidência, tão séria quanto a profecia oracular.

Nessa linha, Mujica sublinha que, antes de falar, o poeta escuta. Ele é, em primeiro lugar, ouvinte do sussurro da memória, desse murmúrio que lembra o que estava esquecido. A criação poética é justamente esse encontro fecundante com a verdade do ser, uma espécie de audição primordial na qual o mundo divino – ou o sagrado do mundo – se deixa perceber num tom, numa música interior, antes mesmo de se deixar traduzir em ideias claras.

A iniciação do poeta: descida ao Hades, Olvido e Memória

Para mostrar que inspiração não dispensa disciplina, Mujica lembra também o lado “pedagógico” da poesia grega. Os rapsodos não eram apenas tocados pelas Musas; eles também viviam em pequenos grupos, em ambientes silenciosos, guiados por um mestre que lhes ensinava técnicas de concentração, métrica e memorização. Mas havia algo além do treino: um verdadeiro ritual de iniciação.

Essa iniciação era muitas vezes descrita como uma descida simbólica ao Hades, o reino dos mortos. O poeta atravessava rios com nomes que já dizem tudo: Aqueronte (da dor), Cocito (dos lamentos), Flegéton (do fogo), até chegar ao Lete, o rio do esquecimento. Essa travessia representava um processo de purificação e desapego, uma passagem pelas sombras para receber ali, no escuro da terra, uma palavra oracular, uma visão do fundo das coisas.

No meio desse percurso surgem duas fontes emblemáticas: Lethe (Olvido) e Mnemosyne (Memória). De acordo com antigas inscrições funerárias, beber da água do Esquecimento significava dissolver-se de vez no ciclo das dores, escapar da roda da vida sem retorno. Mas o poeta, em sua audácia, desafia a prudência: ele se aproxima de Lethe para poder atravessar as portas do reino dos mortos, e, ao mesmo tempo, toma também a água de Mnemosyne, para seguir consciente dentro da noite e não perder a capacidade de recordar.

Essa combinação paradoxal – entrar na sombra carregando consigo a memória – é decisiva no modo como Mujica entende a criação poética. O aedo desce como um morto, mas volta como porta-voz das Musas, alguém que experimentou a morte por dentro sem se apagar, e agora pode narrar o que viu. Sentado no “trono de Mnemosyne”, ele se torna mestre da verdade: suas palavras são a-letheia, isto é, desvelamento sem esquecimento do essencial.

A memória aqui não é um arquivo psicológico do que o poeta viveu, nem uma nostalgia histórica de gestas passadas. Trata-se de um lembrar ontológico: a memória remete ao Origen (arché), não a um simples começo cronológico. O tempo que interessa não é a sequência linear do ontem-hoje-amanhã, mas um tempo mítico, sempre-presente, em que origem e destino se tocam e irradiam sentido para todos os instantes.

Mujica recupera então a distinção grega entre Chronos e Aion. Chronos é o tempo que gasta, que mede, que consome; é a sucessão que nos encaminha para a morte e, como diz a tradição pitagórica, é o lugar onde nasce o esquecimento. Aion, ao contrário, é o tempo originário, qualitativo, que não mede a passagem, mas oferece tempo; é a pulsação sempre nascente que sustenta cada agora. A memória poética não quer reconstruir o passado, quer tocar esse Aion, esse presente originário onde “o que foi” é também “o que ainda será”.

Daí que a função de Mnemosyne seja descrita como uma espécie de ponte entre o mundo dos vivos e o além. A evocação da memória lembra o ritual homérico em que os vivos chamam um morto a subir por um instante à superfície. O poeta, ao recordar o Origen, atravessa essa fronteira e consegue ligar o abismo do começo ao abismo do fim, fazendo-os ressoar numa só palavra. Não se trata de voltar ao passado, mas de permitir que o Origen irrompa, de novo, no presente através do nome poético.

A beleza como clarão: o rabino do Talmud e o “quase”

Quando Mujica tenta pensar o que acontece num verdadeiro acontecimento poético, ele recorre a uma cena surpreendente do Talmud babilônico. Lá se fala de um rabino que viveu em Israel, Yohanan bar Nafha, famoso por uma beleza fora do comum. Em vez de descrevê-lo fisicamente, o texto rabínico propõe um método curioso para “chegar perto” de sua formosura.

O Talmud recomenda pegar uma tigela recém-feita pelo ourives, enchê-la com grãos de romã, cobri-los com pétalas de rosa vermelha e colocar o recipiente, ao meio-dia, bem na transição entre sol e sombra. O brilho que surgir desse jogo de luz e cor, diz o texto, será quase igual à beleza de rabbi Yohanan. A palavra-chave aí é esse “quase”: mesmo esse clarão não esgota o que ele era, mas nos permite tocar, por um instante, algo da sua presença.

Mujica contrapõe essa forma de sugerir a beleza ao modo clássico de descrever personagens, como faz Homero ao retratar Tersites na Ilíada. O poeta grego lista defeitos físicos, deformações, proporções, para que o leitor visualize claramente a figura. É o método da representação: dar forma mental precisa, criar uma imagem interna nítida. Já o Talmud não quer que a gente “veja” o rabino como foto, quer que experimente a beleza como fenômeno, como vivência sensível.

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Aí está uma pista essencial da poética de Mujica: o que importa não é acumular explicações, mas provocar experiências. Não se trata de esgotar um conceito, mas de acender um clarão que nos toque por dentro. O poema, quando de fato cria, é como esse destelo: um lampejo breve, quase um relâmpago, que ilumina por um segundo e já se apaga, deixando para trás uma transformação silenciosa no leitor.

Esse brilho não pertence ao campo da pura compreensão racional, mas ao campo do sentir, do sentido existencial. Primeiro algo em nós é alcançado, depois – talvez – consigamos traduzir em palavras, reflexões, conceitos. E, paradoxalmente, quanto mais intenso é o clarão, mais difícil de ser captado em discurso; mais ele se esquiva de ser explicado, embora marque mais fundo a nossa interioridade.

O pequeno “quase” do texto talmúdico também encanta Mujica. Mesmo a metáfora mais bela não captura totalmente a beleza; sempre resta uma fenda, um espaço aberto para outra epifania possível. Essa fissura impede que a beleza seja reduzida a algo fechado, fixo, submetido ao princípio de identidade. A beleza verdadeira, como o poético, está sempre um pouco além, sempre em aberto, sempre podendo acontecer de novo, de modos inesperados.

Páscoa, ressurreição e o sentido de não parar de nascer

Num outro conjunto de reflexões, Mujica se volta para o tema da Páscoa e da ressurreição, interpretando-os numa chave existencial muito ampla. Ele começa com uma afirmação provocativa: “Deus não é, nem foi, nem simplesmente existe: Deus nasce”. Esse nascer não tem começo nem fim, é um contínuo vir-a-ser, e é nesse fluxo de nascimento que nós mesmos estamos sempre nascendo, a cada passo da vida.

A Páscoa, nesse horizonte, não é apenas uma data religiosa, mas a celebração da eternidade da vida em suas múltiplas formas de renascer. Antes mesmo de ser um rito cristão, a Páscoa foi uma festa ligada à terra, ao espanto diante do dom da natureza. No hemisfério norte, coincidia com o equinócio da primavera: tempo em que os campos voltavam a dar trigo, o pão prometia continuar chegando, as árvores secas começavam a ganhar folhas, e a humanidade respirava alívio diante da ameaça da fome e da morte.

O povo judeu, mais tarde, tomou essa mesma data e a reconfigurou como memória histórica: passou a celebrar a libertação da escravidão no Egito, a passagem do cativeiro para a terra prometida. O foco já não era apenas o ciclo natural da luz e da escuridão, mas o caminho de um povo dentro da história, o atravessar do sofrimento rumo à liberdade. A Páscoa se torna, assim, travessia política, ética e espiritual ao mesmo tempo.

No cristianismo, essa lua cheia é retomada de novo e associada à morte e ressurreição de Jesus. Agora, o que está em jogo é o salto da morte para a vida, do tempo para a eternidade, da finitude para um existir sem término. Não se trata só do consolo de sobreviver, mas da plenitude de um viver-no-amor que não acaba, revelado de modo absoluto na vida de Jesus, no seu amor compassivo “em carne viva”.

Para Mujica, a ressurreição se localiza na zona mais profunda do desejo humano: esse desejo de não desaparecer, de ser em plenitude, de permanecer num “sempre” que é criação incessante. Ressurreição é, ao mesmo tempo, plenitude de vida e plenitude de revelação: mostra qual é o destino último da existência humana quando ela se deixa atravessar por um amor sem reservas. Deus, que no início criou tudo a partir do nada, volta a criar na “nada” da morte de cada um, transformando fim em início de um modo que não cabe em categorias meramente biológicas.

Nessa perspectiva, Páscoa não é um passo isolado, mas um passar contínuo, conjugado a cada escolha. É movimento permanente: do medo à confiança, da posse ao dom, do fechamento ao abrir-se. Caminhamos, assim, do “eu” que já somos para o “eu” que ainda podemos vir a ser, e desse “eu” para os outros, numa dinâmica em que a vida eterna não é só “o que vem depois”, mas o modo como o presente se deixa trabalhar por esse nascer sem fim.

Poemas breves: silêncio, vazio, noite e entrega

A melhor forma de sentir tudo isso talvez seja escutar os poemas curtos de Mujica, em que ele condensa o pensamento em imagens mínimas e ilustra o que são textos recreativos. Neles, aparecem de forma recorrente alguns eixos: o silêncio, a noite, o vazio, a respiração entre dentro e fora, a nudez, o salto sem margem, a unidade entre vida e morte. Em vez de narrativas longas, ele prefere frases que parecem relâmpagos, cortando a escuridão do cotidiano.

Há poemas em que ele diz que o poema que procura é aquele que poderia ser lido em voz alta sem que nada fosse ouvido. A aspiração aí é quase impossível: que as palavras desapareçam para deixar passar só o silêncio cheio de presença. Escrever se torna um exercício de começar de novo essa impossibilidade, riscando e reescrevendo, tentando sempre chegar ao ponto em que linguagem e silêncio coincidam num instante de verdade.

Em outros versos, ele fala de um amanhecer que não quer “iluminar” o eu, mas nascer por si mesmo, como luz virgem. A busca é por um dia novo que não seja mera repetição do velho, um despertar em que não projetamos logo nossas ansiedades sobre o que surge. Ficar quieto diante da aurora, calar medos e presságios, é um modo de dar espaço para que a luz se manifeste, e não apenas para que nos sirva.

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Mujica também toca a experiência da distância que pulsa por dentro, quando o “longe” já é interior. Quando isso acontece, diz ele, o dentro já virou fora; é como se tivéssemos tocado o núcleo anônimo que nos habita e, ao mesmo tempo, nos liga a todos. O “lugar de ninguém” em cada um é justamente o ponto em que todos se encontram, essa abertura onde o eu se descentrar torna-se comunhão.

O jogo entre dia e noite aparece quando ele afirma: o dia não é apenas claridade, também é noite acesa, sombra tornada transparente. Quando não vemos sombras, talvez seja justamente aí que não percebemos o que o vazio acende. O que resta quando não resta nada pode ser, de certo modo, o essencial – aquilo que só aparece depois de perdermos todas as garantias e apoios.

O silêncio, longe de ser simples ausência de som, surge como rastro e sinal daquilo que não tem nome. Há um silêncio que não deixa eco, que não pode ser repetido em palavras; diz o único de cada vez, aquilo que não volta. Esse silêncio aponta para um além de qualquer definição, um real que só se deixa ouvir quando renunciamos a controlar tudo com conceitos e rótulos.

À noite, respira-se um clima propício ao abandono, ao soltar dos medos e das amarras. A escuridão vira caminho, atalho para sondar a própria alma. Deixar-se conduzir por esse “não-ver” pode ser um jeito de se lançar no nada que, paradoxalmente, nos sustenta. A fé, em muitos poemas de Mujica, tem essa cor de salto no escuro, não como fuga da realidade, mas como confiança de que o fundo do abismo é também origem.

A nudez aparece em imagens de praias sem pegadas, em ondas que lambem a areia e retornam ao mar, em corpos que já nem sabem que estão nus. A verdadeira nudez, para ele, não é a exibição, mas o esquecimento de si; é o estar tão entregue que já não há autoconsciência tensa, só um ser simplesmente ali. Essa nudez radical é também a da alma diante de Deus, sem máscaras, sem invenções.

Outras imagens recorrentes são o vento que dá forma às nuvens e logo as desfaz, o raio que rasga a noite por um segundo, as estrelas cadentes que transformam distância em desejo. O vento é o outro que passa por cada outro para ser ele mesmo em tudo; o relâmpago é o gesto de um mistério que se mostra justamente ao se retirar; a estrela fugaz abre fendas que revelam enigmas. Não há corte na noite que não traga, ao mesmo tempo, o nascimento de um segredo.

Mujica insiste também que não há caminhos prontos nem chegada definitiva. O que temos é o “aqui possível”, a nudez com que nascemos. A vida é comparada a um rolar em que nos repetimos quando não ousamos saltar sem já nos esperarmos na outra margem. O convite é abandonar a obsessão por horizontes fechados e aprender a habitar o presente como lugar de entrega.

Em muitos versos, o vazio deixa de ser carência e vira condição de ligação com tudo. Ele fala em cavar até onde não haja fundo, até onde o “eu” já não esteja; só o que não está não nos separa de nada. Esvaziar-se é soltar amarras, abrir espaço, deixar que a vida – e Deus – possam acontecer sem barreiras internas. O centro verdadeiro não fica no centro geométrico, mas onde já não há bordas.

O tema da entrega final reaparece como um salto sem margem, um salto para o mesmo vazio de onde viemos. No fim, não haverá “fim” como interrupção brusca, mas o ato de se entregar completamente, depois de uma vida inteira de ir se esvaziando. Esse salto é, na visão de Mujica, continuidade do gesto criador de Deus em nós: assim como nascemos do nada, somos chamados a nos dar de volta, inteiros, nesse nada que é plenitude.

Por fim, a própria vida é vista como uma pulsação ininterrupta em que cada batida dá à luz uma vida, e cada vida dá à luz seu deus. A chuva que cai e transforma a terra em barro não rouba a vida, apenas apaga a ilusão de separação; o silêncio que fala sem ecos diz o irrepetível; o pássaro voa não porque sabe que tem asas, mas porque é suas asas. Na mesma linha, cada um chega realmente a si quando já se esqueceu de si – quando o ego cede lugar ao ser.

No conjunto, as reflexões de Hugo Mujica compõem um mapa delicado em que criação, memória, silêncio, beleza, Páscoa e morte se entrelaçam num mesmo fio: o de uma existência chamada a nascer, criar e se entregar sem cessar. Sua escrita, que vai da prosa densa ao poema mínimo, constrói pontes entre mitologia grega e tradição bíblica, entre filosofia e mística, entre a densidade do pensamento e a simplicidade de imagens como vento, mar, noite e relâmpago, e contribui para quem estuda 20 tipos de livros e suas características. Ler Mujica em português, mesmo recontado em outras palavras, é ser convidado a esse movimento: descer às próprias sombras, beber de memória e esquecimento, experimentar o “quase” da beleza, e deixar que, no fundo do silêncio, algo em nós também comece a nascer de novo.

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