Suecia, telas nas escolas e o retorno aos livros de papel

Última actualización: maio 10, 2026
  • A Suécia está restringindo celulares e revendo o uso de telas nas escolas após queda na compreensão leitora e preocupações com saúde e atenção.
  • O governo lançou um grande investimento em livros impressos e na leitura em papel, sem abandonar totalmente a digitalização.
  • Especialistas divergem: alguns alertam para riscos do excesso de telas, outros pedem equilíbrio e criticam o discurso simplista de que a tecnologia é a única culpada.
  • A experiência sueca aponta para uma combinação de limites claros, fortalecimento da leitura e uso mais criterioso da tecnologia na educação.

Salas de aula na Suécia e uso de telas

A decisão de Suecia sobre o uso de telas nas escolas virou assunto mundial e gerou um turbilhão de manchetes, debates acalorados e, também, muitos mal-entendidos. Enquanto algumas notícias afirmam que o país “proibiu as telas” e “voltou completamente ao papel”, a realidade é bem mais complexa: há uma combinação de preocupação com a saúde e a aprendizagem das crianças, ajustes em uma estratégia de digitalização ambiciosa e uma forte aposta na leitura em formato físico, sem abandonar por completo a tecnologia.

Ao longo dos últimos anos, o sistema educacional sueco passou de um entusiasmo quase irrestrito com dispositivos digitais para uma postura bem mais cautelosa e seletiva. Esse movimento envolve desde leis para restringir celulares em toda a jornada escolar, passando por novos investimentos gigantescos em livros impressos, até revisões críticas de políticas públicas de digitalização. E, ao mesmo tempo, há uma discussão intensa entre especialistas, professores, famílias e governo sobre quanto, como e quando as telas devem fazer parte da vida escolar.

A virada sueca: de país hiperconectado ao freio nas telas

Em 2017, a Suécia lançou uma estratégia de digitalização para as escolas com horizonte de cinco anos, que tinha objetivos bem claros: abrir mais espaço para a tecnologia em sala de aula, elevar os níveis de competência digital — especialmente entre crianças e jovens — e usar as ferramentas digitais como motor de desenvolvimento de conhecimento e de igualdade de oportunidades. O plano colocava computadores, tablets e recursos online no centro da vida escolar, reforçando a imagem do país como um dos líderes tecnológicos da Europa.

O resultado dessa trajetória é que hoje a Suécia é o segundo país da União Europeia com maior uso de internet, atrás apenas da Dinamarca. A conectividade faz parte do cotidiano: os jovens estão praticamente sempre online, e isso, aos olhos do governo, deixou de ser apenas um sinal de modernidade para se tornar também uma fonte de preocupação. As longas horas conectados, inclusive dentro das escolas, passaram a ser vistas como um fator de risco tanto para o desempenho acadêmico quanto para a saúde física e mental.

Quem tem liderado boa parte desse debate é o ministro de Assuntos Sociais e Saúde Pública, Jakob Forssmed. Ele tem defendido publicamente que os estudantes precisam reencontrar o equilíbrio entre a “vida real” e o fluxo infinito de vídeos curtos, como os reels do TikTok. Segundo Forssmed, o problema não é só o que os alunos deixam de aprender enquanto estão presos à tela, mas também o impacto direto na sua condição física e no seu desenvolvimento global.

Em entrevistas, Forssmed tem usado exemplos bastante concretos do que observa entre os jovens suecos: alunos que não sabem mais usar tesoura com destreza, que não conseguem subir em uma árvore ou caminhar para trás com segurança, porque passam tempo demais sentados mexendo no celular. Ele também menciona o aumento de problemas de saúde que, até pouco tempo atrás, eram mais comuns em adultos e idosos, agora se manifestando em adolescentes, em parte pela falta de movimento e pelo sedentarismo associados ao uso intensivo de telas.

Esse diagnóstico levou o governo a apoiar mudanças legais para restringir de forma mais dura o uso de dispositivos pessoais nas escolas. O objetivo é deixar de lado apenas recomendações gerais e transformar as regras em obrigações claras em nível nacional, para que todas as escolas sigam os mesmos critérios, sem depender da boa vontade ou da interpretação de cada direção escolar.

Debate sobre telas nas escolas da Suécia

Proibição de celulares e novas diretrizes de tempo de tela

Entre as medidas mais discutidas está a proposta de banir o acesso a celulares durante toda a jornada escolar para estudantes até o nono ano. Isso significa que, se a lei for aprovada como está sendo desenhada, os alunos não poderão usar seus aparelhos nem mesmo nos intervalos ou no recreio: o telefone ficaria guardado todo o tempo em que o estudante estiver na escola.

A proposta ganhou força após a divulgação de novas diretrizes da Agência de Saúde Pública da Suécia, publicadas recentemente, que fixam recomendações bem claras sobre o tempo de tela para crianças e adolescentes. Para menores de dois anos, a orientação é de zero exposição a telas; para crianças de dois a cinco anos, o máximo sugerido é de uma hora diária; para a faixa de seis a 12 anos, até duas horas; e, para adolescentes, o limite recomendado é de três horas por dia.

Essas recomendações de tempo máximo têm um peso simbólico e prático: elas servem de base para pais, escolas e profissionais de saúde avaliarem se o uso de dispositivos está razoável ou excessivo. Na visão das autoridades suecas, muitos estudantes já ultrapassam esses limites com folga, especialmente quando se considera não só o que é feito em casa, mas também o que ocorre dentro das próprias instituições de ensino.

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Casos relatados por educadores reforçam essa percepção de dependência. Em Malmö, no sul do país, o vice-prefeito Patrik Sander conta que o colégio em que trabalha adotou há anos uma política de recolher celulares no início do dia e devolvê-los somente na hora do almoço. Segundo ele, quando a medida começou a ser implementada, os alunos demonstravam claramente o vício: mesmo sem o aparelho, era possível ver as mãos procurando instintivamente pelo dispositivo, como um reflexo automático.

Sander também destaca um aspecto muitas vezes esquecido no debate: o impacto das telas no aumento do bullying e de comportamentos abusivos. Houve casos em que alunas foram fotografadas às escondidas nos vestiários da escola e as imagens foram compartilhadas entre colegas, gerando situações de humilhação e violência psicológica. Para ele, limitar o uso de celulares dentro da escola não é só uma questão pedagógica, mas também uma forma concreta de proteger a integridade dos estudantes.

O que dizem as crianças e os professores sobre a dependência de telas

Curiosamente, muitos alunos suecos das séries iniciais reconhecem que o uso de celulares e redes sociais pode virar um problema. Em uma escola primária em Årsta, nos arredores de Estocolmo, as crianças deixam seus celulares pela manhã em sacos de tecido feitos por elas mesmas e só pegam de volta no fim da jornada. Quando entrevistados de forma individual, e sem a presença de professores, alunos de 10 e 11 anos admitiram que ter o celular por perto tornaria muito mais difícil se concentrar.

Uma estudante, Emma, comenta que usa bastante Snapchat e TikTok e que, com facilidade, se sente “viciada”. Na visão dela, se o celular estivesse à mão, a tentação de checar notificações seria constante. Sua colega Livia reforça a mesma impressão: se o aparelho está ao lado, é quase irresistível dar uma olhada a todo momento, interrompendo o foco no que está sendo ensinado em sala.

Outro aluno, Lucas, afirma que, mesmo que pudesse usar o celular na hora do almoço, preferiria jogar futebol com os amigos. Ele explica, porém, que durante as aulas a tentação seria grande demais e o distraíria das atividades escolares. Já Esia, outra estudante, confessa que provavelmente ficaria “absorvida” pelo telefone e prestaria pouca atenção ao professor, até porque considera as aulas “bem mais entediantes” do que os conteúdos que consome no aparelho.

As rotinas de uso também chamam atenção. Esia diz passar três ou quatro horas por dia conectada fora da escola, enquanto outros colegas relatam que seus smartphones têm bloqueios automáticos após duas ou duas horas e meia de uso, uma estratégia das famílias para tentar colocar algum limite. Mesmo assim, todos reconhecem que as redes sociais são altamente atrativas e que a escola cumpre um papel importante ao impor regras mais rígidas.

Para a professora Åsa Lind, que dá aula para essas crianças, seria desejável que as escolas fossem ainda mais firmes ao limitar o tempo de tela em sala de aula, especialmente com os menores. Ela observa que muitas atividades acabam deixando os alunos sentados sozinhos, com fones de ouvido, em frente ao computador, completando tarefas digitais, quando poderiam estar se movimentando, interagindo mais com colegas e manipulando materiais físicos. Na opinião de Lind, é preciso repensar como o tempo de aula é organizado para que as telas sejam um recurso pontual, e não a base de toda a prática pedagógica.

Do “tudo digital” ao retorno dos livros de papel

Paralelamente ao debate sobre celulares, a Suécia iniciou uma reavaliação profunda de sua aposta na digitalização total do ensino. Depois de anos priorizando tablets, lousas digitais e plataformas online, o governo passou a reconhecer que essa guinada pode ter tido efeitos colaterais importantes, sobretudo na capacidade de leitura e escrita dos estudantes.

Relatórios recentes indicam uma queda preocupante na compreensão leitora, especialmente entre alunos mais novos. No exame internacional PIRLS 2021, que mede a leitura em crianças do 4.º ano do ensino fundamental, a Suécia apresentou um retrocesso considerável. Esses dados acenderam um alerta e provocaram questionamentos diretos à política de substituição acelerada de livros físicos por materiais digitais.

Como resposta, o Ministério da Educação sueco passou a adotar o lema “da tela à pasta” para resumir a nova orientação oficial. A ideia central é recolocar o livro de papel, o caderno e a escrita manual no centro da experiência de aprendizagem, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade. Isso não significa banir a tecnologia da escola, mas sim usá-la apenas quando ela realmente melhora o processo de ensino, e não quando funciona como distração ou substituto menos eficiente.

Essa mudança de rota vem acompanhada de um investimento financeiro inédito. O governo destinou cerca de 100 milhões de euros para garantir que cada estudante volte a contar com um livro de texto impresso por disciplina. Os recursos são distribuídos em parcelas anuais — 658 milhões de coroas em 2024, 755 milhões em 2025 — com verbas asseguradas até 2028 para atualizar os materiais de acordo com os novos currículos. O objetivo é reconstruir um acervo físico robusto, que havia sido reduzido durante o auge das telas.

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As novas diretrizes curriculares estabelecem um critério bem claro: ferramentas digitais só devem ser usadas quando de fato promovem o conhecimento. Quando as telas se tornam mais um obstáculo do que um apoio — seja por distraírem o aluno, seja por não favorecerem a compreensão profunda —, a recomendação é priorizar o papel. Inclusive, os exames nacionais do terceiro ano do ensino básico, que eram realizados digitalmente, voltarão a ser feitos apenas em formato analógico, com lápis e papel.

Críticas à cobertura da mídia e revisão do plano de digitalização

Apesar de muitas manchetes internacionais terem anunciado que “a Suécia abandonou a digitalização”, especialistas em educação chamam atenção para o fato de que o quadro real é mais nuançado. Héctor Ruiz Martín, diretor da International Science Teaching Foundation, buscou diretamente fontes suecas para entender melhor a situação e concluiu que o país não está simplesmente jogando fora o plano de digitalização aprovado recentemente.

Segundo Ruiz Martín, o que a ministra da Educação, Lotta Edholm, fez foi pedir uma avaliação técnica desse plano por parte de diferentes especialistas, com base em evidências atualizadas sobre aprendizagem e desenvolvimento infantil. A ideia é ajustar aquilo que for necessário, corrigir excessos e garantir que as ferramentas digitais sejam integradas com critério, em vez de seguir um caminho de “tudo digital” sem questionamentos. A ministra, inclusive, reconheceu publicamente que a digitalização “pode ser fantástica” para os estudantes, desde que usada com bom senso.

Um dos ajustes relevantes é a decisão de que os estudantes suecos repetirão certas provas em formato de papel, depois de terem realizado todas as avaliações do PIRLS 2021 em versão digital pela primeira vez. As autoridades querem comparar melhor os resultados e entender até que ponto o meio utilizado (tela ou papel) pode influenciar no desempenho em leitura, especialmente entre as crianças mais novas.

Além disso, o governo sueco anunciou investimentos específicos para aumentar a presença de livros nas escolas. Foram destinados 60 milhões de euros para compra de material didático impresso e outros 44 milhões voltados ao fortalecimento do desenvolvimento da linguagem, da leitura e da escrita. Esses recursos caminham em paralelo ao grande pacote de 100 milhões de euros para reconstrução do acervo de livros de texto, formando um conjunto de medidas para recolocar o texto impresso no centro.

Essa estratégia reflete a preocupação com os resultados de avaliações internacionais e também com indícios internos de piora na qualidade da leitura. No relatório PISA, por exemplo, quase um quarto dos estudantes suecos de 15 anos não atingiu o nível básico de compreensão leitora. Diante disso, representantes do governo, como o porta-voz de educação Joar Forsell, defendem que só é possível aproveitar ao máximo tecnologias avançadas — como inteligência artificial e ambientes virtuais — quando o aluno já domina bem os fundamentos de leitura, escrita e matemática.

Debate entre especialistas: telas, leitura e motivação

A reorientação sueca gerou ecos em muitos outros países e abriu debates intensos entre especialistas em educação, psicologia e tecnologia. Várias vozes se manifestaram em artigos, redes sociais e entrevistas, ora aplaudindo as restrições às telas, ora criticando interpretações que consideram exageradas ou simplistas sobre a relação entre tecnologia e queda na compreensão leitora.

A doutora em Educação e Psicologia Catherine L’Ecuyer é uma das vozes mais críticas ao uso de tablets e outros dispositivos com fins educativos. Em uma carta aberta dirigida a diretores de escolas que adotam tablets em sala, ela pede cautela, argumentando que ainda não existe um conjunto sólido de evidências que comprove benefícios consistentes desse uso para a aprendizagem. Para L’Ecuyer, o entusiasmo tecnológico não pode substituir a avaliação rigorosa dos resultados.

Ela também questiona o argumento de que os estudantes “gostam” das telas e, por isso, aprenderiam melhor com elas. Na sua visão, muitas pesquisas que apontam aumento de motivação medem, na verdade, uma fascinação passiva pelos estímulos constantes, e não um interesse genuíno em aprender. A mente ainda imatura da criança, argumenta, tende a se tornar dependente da dinâmica da tela, na qual algoritmos determinam o que será visto em seguida, reduzindo a iniciativa ativa do aluno.

A advogada e jornalista Estela Martín aponta em outra direção complementar: para ela, tudo depende de como a tecnologia é utilizada. Martín reconhece que a compreensão leitora é um pilar fundamental e que é reforçada, sobretudo, com leitura e escrita constantes. No entanto, alerta para o fato de que as telas não devem ser tratadas como substitutas da prática da lectoescrita: quando isso ocorre, corre-se o risco de formar gerações com habilidades de leitura cada vez mais frágeis, sem que isso signifique aproveitar o verdadeiro potencial da tecnologia.

Na sua opinião, o problema não é simplesmente “banir” ou “abraçar” as telas, mas evitar que a escola caia na armadilha de tornar tudo mais “cômodo” para o aluno com recursos digitais superficiais. Quando o ensino se reduz a interações rápidas e pouco exigentes, o que se observa é um retrocesso nas competências de leitura e escrita, mesmo que a escola esteja cheia de dispositivos sofisticados.

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Nem demônio nem solução mágica: um uso mais inteligente das telas

Outros especialistas defendem uma postura de equilíbrio mais explícita, evitando tanto a demonização das telas quanto a adoção acrítica de qualquer novidade tecnológica. A psicóloga Carmen Esteban, por exemplo, insiste na importância do bom senso: na adolescência, recursos digitais podem desempenhar um papel motivador importante, aproximando o aluno de certos conteúdos e formatos que despertam maior interesse.

Para Esteban, as telas fazem sentido sobretudo como complemento: para exibir filmes e documentários ligados a temas trabalhados em aula, para explorar canções e materiais multimídia, para ensinar pesquisa responsável em sites oficiais e uso ético de informações, ou ainda para trabalhar com apresentações e aplicativos que desenvolvam competências digitais reais. O problema surge quando a tecnologia vira um fim em si mesma, em vez de um instrumento a serviço de objetivos pedagógicos claros.

Susana Martín, responsável por inovação e transformação digital em uma grande editora educacional, também defende a convivência entre papel e tecnologia. Em suas intervenções, ela lamenta a tendência de reduzir o debate a posições binárias — digital “sim ou não”, livro de texto “sim ou não” — e lembra que o maior potencial está justamente na combinação bem pensada dos dois mundos, aproveitando o que cada um tem de melhor.

Ela critica duramente a ideia de jogar fora, de uma vez, os planos de digitalização e de confundir tecnologia educacional com mera presença de telas. Um dos exemplos que menciona é o uso da tablet ou do celular como “chupeta eletrônica” em casa: muitos pais deixam crianças de 3 ou 4 anos navegarem sozinhas por vídeos no YouTube, sem supervisão, e depois culpam exclusivamente a utilização de livros digitais na escola pela falta de atenção dos filhos. Para Martín, é preciso diferenciar o uso descontrolado em casa de práticas pedagógicas intencionais em sala de aula.

Essa visão ressalta que o problema não é o dispositivo em si, mas a forma como ele é integrado à rotina da criança. Quando o tablet é apenas um passatempo passivo e ilimitado, é provável que haja impacto negativo na atenção e na leitura. Mas, quando aparecem atividades planejadas, com tempo definido e objetivos específicos, a tecnologia pode apoiar — e não sabotar — o desenvolvimento cognitivo.

As causas da queda na leitura vão além das telas

Outra crítica importante ao discurso dominante de que “as telas são culpadas pela queda da leitura” vem de especialistas como Héctor Gardó, doutor em Ciências da Educação e diretor de Equidade Digital em uma fundação dedicada à educação. Em artigos e entrevistas, ele alerta para o perigo de se atribuir todo o problema à presença de dispositivos digitais, como se bastasse diminuir a exposição às telas para resolver a crise da compreensão leitora.

Gardó propõe que a pergunta central seja outra: o que está sendo feito, de fato, para promover a leitura entre crianças e jovens, especialmente em contextos vulneráveis? Em famílias que não têm o hábito de ler ou não podem apoiar os filhos com livros e acompanhamento, a escola muitas vezes é o único lugar em que a leitura entra na vida do aluno. Se a instituição não cumprir esse papel com seriedade — garantindo bibliotecas, projetos de leitura, tempo de leitura silenciosa e mediada —, não haverá tecnologia que resolva o déficit.

Ele ressalta que culpar apenas as telas é um discurso confortável, mas superficial. Como exemplo, cita a situação da Catalunha, onde apenas 58% das escolas públicas contam com biblioteca escolar, contra 79% em 2015. Em um cenário assim, responsabilizar exclusivamente os dispositivos digitais pelos baixos indicadores de leitura seria, no mínimo, incoerente. Falta, antes de tudo, infraestrutura básica para fomentar o hábito leitor dentro das instituições de ensino.

Essa perspectiva reforça a ideia de que a reforma sueca precisa ser acompanhada de mais do que restrições e proibições. Investir em livros físicos e reduzir o tempo de tela, observando os tipos de leitura, é importante, mas não suficiente se as escolas não tiverem bibliotecas ativas, programas de incentivo à leitura e formação adequada de professores para trabalhar literatura e compreensão textual de forma envolvente.

No debate sobre a experiência sueca, muitos especialistas convergem em um ponto central: a digitalização educacional não é um erro em si, mas precisa ser reorientada. A tecnologia deve entrar em cena quando traz ganhos concretos para a aprendizagem — por exemplo, facilitando o acesso a materiais atualizados, apoiando alunos com necessidades especiais ou permitindo projetos colaborativos —, e não apenas porque está na moda ou porque parece modernizar a escola aos olhos da sociedade.

A trajetória da Suécia mostra que um país altamente conectado também pode decidir pisar no freio quando percebe que o entusiasmo com as telas ultrapassou o limite saudável para suas crianças e jovens. Reaparecem com força o livro de papel, o caderno e a escrita manual, somados a regras mais firmes para celulares e um olhar mais crítico para o impacto das telas na saúde e na mente. Ao mesmo tempo, a tecnologia segue presente, mas em um papel mais sóbrio e selecionado, enquanto a sociedade discute como equilibrar motivação, atenção, leitura profunda e bem-estar em uma era inevitavelmente digital.

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