Bullying e estresse pós-traumático: impactos profundos na saúde mental

Última actualización: janeiro 17, 2026
  • O bullying, em suas formas física, verbal, relacional, sexual e digital, é uma violência repetida que causa sofrimento emocional intenso.
  • Pesquisas mostram que vítimas de bullying têm maior risco de desenvolver TEPT, ansiedade, depressão e outros transtornos duradouros.
  • O contexto familiar, escolar, social e laboral pode tanto favorecer o bullying quanto atuar como fator de proteção e recuperação.
  • Diagnóstico especializado, tratamento baseado em evidências e redes de apoio são fundamentais para superar o trauma e prevenir novos casos.

bullying e estresse pós-traumático

Bullying não é só uma “fase chata” da escola: para muitas crianças, adolescentes e até adultos, ele se torna uma experiência tão avassaladora que deixa marcas profundas na mente, no corpo e na saúde mental. A exposição contínua a humilhações, ameaças, exclusão e violência pode desencadear sintomas semelhantes aos de outros eventos extremos, como acidentes graves ou agressões físicas severas.

Hoje já sabemos, com base em estudos internacionais e pesquisas feitas no Brasil e em outros países, que o bullying pode estar diretamente ligado ao desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e de outros quadros de ansiedade, depressão, ideação suicida e dificuldades sociais duradouras. Neste artigo, vamos destrinchar em detalhe como o bullying funciona, por que ele pode ser traumático, quais sinais observar e que caminhos de apoio e prevenção são realmente eficazes.

O que é bullying e por que é diferente de “brincadeira” ou conflito comum

O bullying é um padrão de comportamentos agressivos, intencionais e repetidos, em que uma pessoa ou grupo usa seu poder para ferir, humilhar ou controlar alguém que tem menos força ou recursos para se defender. Não se trata de um desentendimento pontual ou de uma discussão isolada, mas de uma dinâmica de dominação que se prolonga no tempo.

Pesquisadores como Dan Olweus definem o bullying como ações negativas físicas, verbais, relacionais ou sexuais que se repetem ao longo do tempo contra alguém em posição de desvantagem. Esse desequilíbrio pode ser físico (alguém mais forte), social (mais popular), econômico, de idade ou mesmo simbólico, como o prestígio entre colegas.

O que diferencia o bullying de outras formas de violência é a combinação de três elementos: intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder. A intenção é machucar, controlar ou rebaixar; o comportamento aparece muitas vezes; e a vítima dificilmente consegue interromper sozinha a situação.

Além da escola, o bullying pode ocorrer no trabalho, em grupos de amigos, na família, em comunidades religiosas e, cada vez mais, no ambiente digital (cyberbullying). Em todos esses contextos, o efeito central é o mesmo: um sofrimento psicoafetivo intenso, marcado por medo, vergonha, impotência e solidão.

Formas de bullying: físico, verbal, relacional, sexual e cyberbullying

O bullying se manifesta de várias maneiras, algumas bem visíveis, outras mais discretas, mas todas com potencial de causar danos emocionais significativos. Entender esses formatos ajuda a identificar situações de risco que muitas vezes passam “batido” por adultos.

No bullying físico, aparecem empurrões, socos, chutes, rasteiras, empurrar contra paredes, danificar ou roubar objetos pessoais, cuspir ou qualquer tipo de agressão corporal direta. É o tipo mais fácil de notar, mas nem por isso o mais frequente em todos os contextos.

O bullying verbal inclui xingamentos, provocações, ameaças, apelidos depreciativos, ridicularização constante e comentários maldosos. Às vezes vem disfarçado de “brincadeira”, porém o alvo sente claramente a intenção de humilhar, e isso corrói a autoestima.

O bullying relacional ou socioemocional ocorre quando se espalham boatos, se difama alguém, se isola uma pessoa de atividades sociais, se sabota amizades ou se incentiva o grupo a rejeitar um colega. Esse tipo é especialmente comum entre meninas, mas afeta todos os gêneros, e está fortemente ligado a sentimentos de solidão e exclusão.

Já o bullying sexual envolve toques sem consentimento, comentários de cunho sexual, piadas sobre o corpo, coerção para envio de fotos íntimas e divulgação de conteúdos privados. Quando há partilha de imagens íntimas ou exposição nas redes, há um entrelaçamento com o cyberbullying, elevando ainda mais o potencial traumático.

O cyberbullying utiliza celulares, computadores e redes sociais para enviar mensagens ofensivas, ameaçadoras, divulgar fotos ou dados pessoais sem autorização ou criar perfis falsos para ridicularizar alguém. Como o ataque pode ocorrer 24 horas por dia, atingir grande audiência e muitas vezes em anonimato, o sentimento de invasão e insegurança tende a ser muito intenso.

Quem agride e quem sofre: perfis de agressores, vítimas e espectadores

No cenário do bullying, normalmente encontramos papéis recorrentes: o agressor principal, seus seguidores, os espectadores e a vítima — mas esses papéis não são fixos, e podem se alternar ao longo do tempo. Uma criança vítima em um grupo pode tornar‑se agressora em outro contexto, por exemplo.

Os agressores costumam apresentar maior força física ou social, comportamento impulsivo, tendência à agressividade, baixa empatia e necessidade de dominar ou controlar os outros. Muitos desafiam autoridades, têm baixa tolerância à frustração e enxergam a violência como meio aceitável para resolver conflitos ou ganhar status.

Entre as vítimas, autores descrevem principalmente dois tipos: as vítimas passivas e as vítimas provocativas. As primeiras tendem a ser mais ansiosas, quietas, submissas, com poucos amigos e autoestima baixa; as segundas, também ansiosas, reagem de forma irritadiça, às vezes tentando devolver a agressão, o que acaba reforçando o ciclo de violência.

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Um ponto comum é que vítimas geralmente ocupam posição de baixo status entre pares, sendo rejeitadas ou isoladas. São percebidas como frágeis ou “covardes”, o que alimenta a percepção de que são alvos “fáceis”, e faz com que enxerguem a sala de aula ou o local de trabalho como ambientes hostis.

Os espectadores podem reforçar o bullying (rindo, apoiando, compartilhando conteúdos), permanecer omissos (assistindo em silêncio) ou atuar como parte da solução (defendendo, acolhendo, pedindo ajuda a adultos ou autoridades). O comportamento do grupo de pares tem enorme peso na manutenção ou interrupção do problema.

Contexto familiar, escolar e social: por que o bullying acontece

O comportamento de bullying não nasce do nada; ele é aprendido e reforçado em contextos específicos, principalmente família, escola, grupo de amigos e cultura em geral. Modelos de violência, estilos parentais ecléticos e ambientes pouco acolhedores favorecem que a intimidação vire “modo de funcionamento”.

Em muitas famílias, a convivência com violência doméstica, punições físicas, gritos, humilhações e negligência afetiva oferece à criança um roteiro de relacionamento baseado no medo e no controle. Alguns pais ainda reforçam comportamentos agressivos como sinal de força ou “esperteza”, o que pode estimular o papel de agressor.

Estudos mostram que a exposição à violência entre os pais aumenta significativamente a probabilidade de a criança envolver‑se em bullying, seja como agressor, vítima ou ambos. Crianças que sofrem maus‑tratos ou presenciam agressões conjugais têm mais risco de ter comportamentos antissociais, inclusive na escola.

A escola, por sua vez, deveria ser um espaço seguro de socialização e aprendizagem, mas muitas vezes falha em garantir proteção, regras claras e clima de respeito. Quando há pouca supervisão, respostas inconsistentes dos adultos e banalização das agressões, o bullying se instala com facilidade.

Fatores culturais e midiáticos também entram na equação: ambientes que glorificam a violência, o preconceito e a humilhação pública, bem como discursos de ódio e intolerância, ajudam a normalizar atitudes de bullying. Além disso, diferenças de gênero, raça, orientação sexual, deficiência ou condição socioeconômica frequentemente se tornam alvos de ataques.

Consequências emocionais imediatas do bullying

Os impactos do bullying começam cedo e podem aparecer em múltiplas dimensões: emocional, física, social e acadêmica. Mesmo quando os episódios parecem “leves” para quem observa de fora, o acúmulo diário de agressões pode ser devastador para quem vive isso na pele.

Entre as consequências emocionais mais descritas estão medo constante, tristeza profunda, solidão, vergonha, raiva, confusão e sentimento de inferioridade. A vítima passa a acreditar nas mensagens negativas recebidas, construindo uma autoimagem distorcida e fragilizada.

Sintomas físicos e psicossomáticos também são muito comuns: dores de cabeça, dores de estômago, tonturas, tensão muscular, alterações no sono, enurese, falta de energia e quedas de imunidade. Muitas crianças começam a faltar às aulas alegando mal-estar, quando na verdade estão tentando escapar da situação de bullying.

Do ponto de vista psiquiátrico, pesquisas relatam aumento de ansiedade, depressão, ideação suicida e tentativas de suicídio entre vítimas de bullying. Em casos extremos, há relatos de ataques violentos em escolas em que autores eram ex‑vítimas de bullying severo e crônico, carregando longo histórico de sofrimento e desespero.

No campo social, o bullying gera retraimento, dificuldade de confiar nas pessoas, percepção da sala de aula ou do trabalho como ambientes hostis e sensação de não pertencer a lugar nenhum. Essas dificuldades podem se arrastar pela vida adulta, aparecendo como problemas em relações amorosas, amizades e vínculos profissionais.

Bullying e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)

O TEPT é um transtorno associado à vivência de eventos traumáticos que ameaçam a integridade física ou psicológica, e hoje já se reconhece que o bullying, quando intenso e prolongado, pode cumprir esse papel traumático. Isso vale tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos.

Segundo manuais diagnósticos como o DSM, o TEPT envolve a exposição a um evento ou série de eventos muito ameaçadores, seguidos por sintomas em quatro eixos principais: revivescência, esquiva, alterações negativas em pensamentos e emoções, e hiperexcitação fisiológica. No contexto de bullying, esses critérios podem ser preenchidos sem dificuldade.

Revivescência significa que a pessoa revive o trauma por meio de lembranças intrusivas, flashbacks, pesadelos ou sofrimento intenso diante de qualquer situação que lembre o bullying. Uma simples ida à escola, ver colegas, receber uma mensagem no celular ou passar por um corredor pode disparar esse mal-estar.

A esquiva aparece quando a vítima passa a evitar lugares, pessoas, conversas ou atividades que lembrem a agressão. Isso pode se traduzir em medo de ir à aula, recusa em usar redes sociais, dificuldade de se aproximar de grupos ou até abandono de estudos ou empregos.

As alterações negativas em pensamentos e emoções incluem crenças de culpa (“a culpa é minha”), vergonha intensa, visão extremamente negativa sobre si mesmo (“não valho nada”) e sobre o mundo (“ninguém é confiável”), perda de interesse por atividades, sensação de distanciamento das pessoas e incapacidade de sentir emoções positivas.

Por fim, a hiperexcitação se manifesta como irritabilidade, explosões de raiva, hipervigilância, sobressaltos exagerados, dificuldade de concentração e insônia. O corpo e a mente permanecem em “modo de alerta”, como se o perigo fosse reaparecer a qualquer momento, mesmo anos depois do fim do bullying.

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O que dizem as pesquisas sobre bullying e TEPT

Revisões de literatura mostram que uma parcela importante das vítimas de bullying desenvolve sintomas de TEPT ainda na infância e adolescência, e outra parte manifesta sintomas tardios, na vida adulta. Ou seja, o impacto não se limita ao período escolar.

Estudos com estudantes de diversos países indicaram que a maioria das crianças e adolescentes já vivenciou algum evento traumático, e que a humilhação por bullying é relatada por uma parte expressiva desses jovens. Em alguns trabalhos, cerca de um terço dos estudantes vitimizados por bullying apresentou níveis clinicamente significativos de sintomas de estresse pós-traumático.

Pesquisas conduzidas com amostras grandes de alunos de diferentes nações mostraram prevalências preocupantes de envolvimento em bullying, seja como agressor, vítima ou ambos. Percentuais de vitimização variaram em torno de 10% a 20% em vários contextos, mas em algumas amostras brasileiras, quase metade dos estudantes relatou ter algum envolvimento direto com bullying.

Quando se avaliam adultos relembrando suas experiências escolares, encontra-se uma associação consistente entre ter sofrido bullying e apresentar, anos depois, ansiedade, depressão e sintomas de TEPT. Em alguns estudos universitários, entre 6% e 10% dos participantes preencheu critérios para TEPT, tendo como principal gatilho suas piores experiências escolares, muitas vezes marcadas pelo bullying.

Há trabalhos que indicam, inclusive, que o bullying na infância pode estar ligado a mais quadros de ansiedade e depressão do que outros traumas considerados “mais graves”, como certos tipos de abuso, justamente pela repetição e pela sensação de desamparo prolongado. Isso reforça a ideia de que o “trauma do dia a dia” também pode ser profundamente destrutivo.

Bullying na vida adulta: trabalho, relações sociais e família

Embora o bullying seja mais estudado no contexto escolar, ele também aparece com força na vida adulta, especialmente em ambientes de trabalho, relações sociais e até dentro de casa. Nesses casos, muitas vezes se fala em assédio moral, mas a lógica de humilhação repetida e desequilíbrio de poder é semelhante.

No trabalho, o bullying pode incluir humilhações em público, gritos, ironias constantes, tarefas impossíveis, sobrecarga proposital, isolamento do grupo, boicote, insinuações maldosas, discriminação e ameaças veladas ou explícitas. Isso pode vir de chefes, colegas ou equipes inteiras.

Nas relações sociais, em grupos de amigos, clubes ou espaços comunitários, o bullying pode assumir a forma de piadas cruéis, exposição de segredos, fofocas, exclusão sistemática de encontros e manipulação emocional. Muitas vítimas demoram a perceber que o que vivem é abuso, por trás da ideia de “brincadeira” ou “brincadeira pesada”.

No contexto familiar, o bullying é especialmente destrutivo porque a pessoa agredida costuma depender emocional ou financeiramente de quem a ataca. Críticas constantes, humilhações, apelidos ofensivos, desprezo, chantagem emocional e negligência afetiva repetida podem produzir sofrimento intenso e duradouro, inclusive TEPT.

Os impactos psicológicos na vida adulta incluem ansiedade crônica, estresse elevado, depressão, queda acentuada da autoestima, problemas de sono, sintomas físicos variados e, em casos mais graves, desenvolvimento de transtornos de estresse pós-traumático e de ansiedade social. As vítimas passam a evitar ambientes, pessoas e situações que associam à humilhação.

Ansiedade, depressão e outros transtornos ligados ao bullying

Além do TEPT, o bullying está fortemente associado a outros transtornos de saúde mental, que podem se sobrepor ou evoluir ao longo do tempo. Entre eles, se destacam a ansiedade generalizada, ataques de pânico, depressão e transtorno de ansiedade social.

No transtorno de ansiedade generalizada, a pessoa vive em estado de preocupação constante, com sensação persistente de que algo ruim vai acontecer. Sintomas físicos como fadiga, insônia, tensão muscular e desconforto gástrico são comuns, e muitas vítimas de bullying descrevem esse tipo de inquietação difusa.

Os ataques de pânico surgem como crises abruptas de medo intenso, acompanhadas de palpitações, dificuldade para respirar, sensação de desmaio ou morte iminente. Depois de alguns episódios, a pessoa passa a temer novos ataques e evita locais onde imagina que possa passar mal, o que pode levar à agorafobia.

A depressão ligada ao bullying costuma trazer tristeza profunda, desesperança, perda de interesse em atividades, alterações de apetite e sono, além de pensamentos de morte ou suicídio. A mensagem constante de que a vítima “não presta” ou “não é boa o suficiente” vai sendo internalizada e alimenta esse quadro.

O transtorno de ansiedade social, por sua vez, aparece quando o medo de ser julgado, humilhado ou rejeitado em situações sociais se torna intenso e incapacitante. Quem sofreu bullying repetido, especialmente em público, pode desenvolver um medo paralisante de convívio social, apresentações, reuniões e qualquer situação em que possa ser “observado”.

Bullying, silêncio e barreiras para pedir ajuda

Um dos grandes combustíveis do bullying é o silêncio das vítimas e das testemunhas. Medo de represálias, vergonha, sensação de fraqueza, descrença nos adultos e banalização do problema fazem com que muitos sofram calados por meses ou anos.

Muitas crianças e adolescentes evitam contar o que acontece para não preocupar os pais, para não parecerem “fracos” diante dos colegas ou porque acham que nada vai mudar. Em ambientes de trabalho, o medo de perder o emprego, ser rotulado como “problemático” ou sofrer retaliações dificulta a denúncia.

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Esse silêncio prolonga o tempo de exposição ao trauma, aumentando a probabilidade de consequências graves como TEPT, depressão severa ou comportamentos autolesivos. Quanto mais longa a vitimização, maior tende a ser o impacto.

Por isso, é fundamental que famílias, escolas e empresas enviem mensagens claras de que o bullying não é aceito, que a denúncia é encorajada e que haverá proteção e acolhimento a quem falar. Programas que valorizam a empatia, o respeito e a solidariedade ajudam a quebrar esse pacto de silêncio.

Diagnóstico de TEPT relacionado ao bullying

Quando se suspeita de TEPT decorrente de bullying, é essencial uma avaliação cuidadosa feita por profissionais qualificados, como psicólogos clínicos, psiquiatras infantojuvenis ou médicos/psicólogos forenses em casos judicializados. O diagnóstico não pode ser feito apenas com base em auto‑observação.

O processo costuma envolver entrevistas clínicas detalhadas com a vítima e, no caso de crianças, também com os responsáveis, explorando a história de agressões, o contexto em que ocorreram e os sintomas atuais. Frequentemente são usados questionários padronizados de TEPT, escalas de ansiedade e depressão, além de instrumentos específicos sobre experiências escolares ou laborais traumáticas.

É importante que o profissional estabeleça, de forma técnica, a relação entre a vivência de bullying e o quadro de sintomas, diferenciando o que pode estar associado a outros estressores da vida da pessoa, como violência familiar, perdas, desastres ou doenças graves. Essa análise é especialmente relevante quando se pensa em implicações legais.

Um bom laudo deve descrever os tipos de agressão sofridos, sua frequência, duração, intensidade, as reações emocionais na época, os sintomas desenvolvidos (revivescência, esquiva, hiperexcitação, alterações cognitivas e emocionais) e o impacto na vida escolar, social, profissional e familiar.

Além disso, o profissional precisa avaliar fatores de vulnerabilidade e de proteção: histórico prévio de transtornos mentais, suporte familiar, presença de figuras significativas na escola ou no trabalho, características de personalidade, entre outros. Tudo isso ajuda a planejar o tratamento e, se for o caso, a sustentar pedidos de medidas de proteção e reparação.

Caminhos de tratamento e superação do trauma por bullying

Apesar da gravidade do quadro, existem intervenções eficazes para tratar o TEPT e outros transtornos decorrentes do bullying, tanto em crianças quanto em adultos. O elemento central é que a vítima seja levada a sério e receba apoio consistente.

Terapias baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo‑Comportamental focada em trauma (TCC‑T) e o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), têm bons resultados na redução de flashbacks, pesadelos, esquiva e hiperexcitação. Elas ajudam a ressignificar memórias dolorosas e a reconstruir crenças sobre si mesmo e sobre o mundo. Essas abordagens demonstram os benefícios da psicologia.

Nos casos em que há depressão severa, ansiedade intensa ou insônia incapacitante, pode ser indicada medicação prescrita por psiquiatra, sempre em conjunto com psicoterapia. Antidepressivos e ansiolíticos podem estabilizar o quadro para que a pessoa consiga se engajar no processo terapêutico.

Para além da terapia individual, o fortalecimento de redes de apoio é fundamental: família presente e acolhedora, amigos que escutam sem julgar, grupos de apoio com outras vítimas e profissionais da escola ou da empresa comprometidos com mudanças concretas.

Estratégias de autocuidado também têm papel importante, como organizar rotina de sono, praticar exercícios físicos, desenvolver hobbies prazerosos, treinar técnicas de relaxamento, respiração e mindfulness. Esses recursos não substituem o tratamento, mas complementam a recuperação.

Direitos, responsabilidades institucionais e prevenção

Em muitos países, inclusive no Brasil e em contextos de língua espanhola e portuguesa, a legislação já reconhece a violência contra crianças e adolescentes — incluindo o bullying — como uma forma de violação de direitos. Leis de proteção integral estabelecem a obrigação de escolas e instituições de garantir ambientes seguros.

Centros educativos têm o dever legal e ético de prevenir, detectar e intervir em situações de bullying, ativando protocolos, comunicando famílias, protegendo a vítima e trabalhando com os agressores e com o grupo de pares. Ignorar queixas, minimizar relatos ou tratar episódios como “brincadeiras de criança” pode configurar omissão grave.

Em casos com sequelas psicológicas importantes, laudos de TEPT e outros transtornos podem embasar pedidos de adaptações escolares, mudanças de turma ou de instituição, ações de responsabilização civil e, em algumas circunstâncias, processos criminais. A documentação de episódios (mensagens, prints, registros médicos, relatos de testemunhas, comunicações oficiais) é essencial.

No ambiente de trabalho, políticas claras contra assédio moral, canais de denúncia seguros, treinamento de lideranças e supervisão ativa dos climas organizacionais são pilares para prevenir que o bullying se instale. Empresas que toleram práticas abusivas acabam pagando um preço alto em adoecimento, rotatividade e queda de produtividade.

Programas educativos que discutam empatia, respeito às diferenças, comunicação não violenta e resolução pacífica de conflitos, desde a infância, ajudam a construir culturas menos violentas. A escola e a família são parceiros centrais nesse processo.

Olhar para o bullying como algo capaz de gerar traumas profundos, incluindo o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, muda a forma como lidamos com o tema: deixa de ser “drama” ou “coisa de adolescente” e passa a ser um problema sério de saúde mental e de direitos humanos, que exige prevenção, acolhimento e intervenção qualificada em todos os contextos em que acontece.

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