Solidão em jovens e saúde mental: causas, riscos e caminhos de apoio

Última actualización: abril 29, 2026
  • A solidão não desejada afeta de forma significativa adolescentes e jovens, aumentando o risco de ansiedade, depressão e autolesão.
  • Fatores como qualidade das amizades, pobreza, bullying, uso digital, discriminação e saúde mental prévia interagem e potenciam o isolamento.
  • Família, escola, comunidade e políticas públicas podem atuar como fortes fatores protetores se promoverem vínculos, inclusão e acesso a apoio psicológico.

soledad en jóvenes y salud mental

A solidão não desejada entre adolescentes e jovens adultos deixou de ser um fenómeno pontual para se tornar um problema social e de saúde mental em larga escala, que atravessa países, contextos e classes sociais. Ainda que sempre tenha existido, os dados atuais mostram que este sentimento se intensificou, afetando de forma especial as pessoas entre os 13 e os 29 anos, com impacto direto na sua autoestima, rendimento académico, relações sociais e até no risco de depressão, ansiedade e comportamentos autolesivos.

Quando falamos de solidão em jovens não estamos a falar apenas de alguém que passa muito tempo sozinho, mas de uma sensação profunda de desconexão, de não se sentir compreendido nem apoiado, mesmo estando rodeado de pessoas. Estudos recentes em Espanha, relatórios da OMS e revisões científicas internacionais convergem no mesmo ponto: a solidão não desejada é hoje um dos fatores de risco mais importantes para a saúde mental na infância, adolescência e juventude.

O que é, afinal, a solidão em jovens?

Sentir-se só não é o mesmo que estar fisicamente só. Um adolescente pode passar muito tempo em casa com a família ou rodeado de colegas na escola e, ainda assim, viver uma sensação intensa de isolamento emocional. A solidão é uma experiência subjetiva que surge quando há um desajuste entre o tipo e a quantidade de relações sociais que uma pessoa tem e aquelas que gostaria de ter.

Do ponto de vista psicológico, a solidão juvenil é definida como a perceção de falta de vínculo e de conexão significativa com os outros, tanto no plano da quantidade de relações como, sobretudo, na sua qualidade. Não basta ter contacto com pessoas, é preciso sentir apoio, compreensão, reconhecimento e pertença a um grupo com o qual o jovem se identifique.

É útil diferenciar solidão de isolamento social. A solidão é uma vivência interna, baseada em como o jovem interpreta as suas relações; já o isolamento social é uma condição objetiva, em que praticamente não há rede de apoio, contactos regulares nem participação em contextos sociais. Um jovem pode sentir-se só mesmo com muitos contactos, e pode existir alguém com poucos contactos, mas que não vive a situação como sofrimento.

A solidão pode aparecer em diferentes fases da vida, mas é especialmente delicada na infância e na adolescência, porque são períodos de desenvolvimento emocional intenso, de construção de identidade e de formação da autoestima. Quando o sentimento de solidão se mantém de forma prolongada, os estudos mostram que aumenta o risco de problemas de saúde mental tanto a curto como a longo prazo.

Na adolescência, o afastamento natural em relação aos pais e o peso crescente dos pares criam um terreno muito sensível. Os vínculos com amigos e grupos de pertença tornam-se centrais, e qualquer falha, rejeição ou exclusão é vivida com enorme intensidade. Quando não há amizades estáveis, quando o jovem sente que “não encaixa” ou não encontra o seu lugar, a solidão tende a instalar-se e a tornar-se mais difícil de gerir.

Dados preocupantes: radiografia da solidão juvenil

Um estudo recente sobre juventude e solidão não desejada em Espanha, baseado em 1.800 jovens dos 16 aos 29 anos, permite ter uma imagem muito detalhada do problema. Os resultados mostram que cerca de um em cada quatro jovens desse intervalo etário afirma sentir-se só no momento atual, com maior intensidade entre os 21 e os 26 anos e com prevalência superior entre as mulheres.

Os números vão mais longe: cerca de 69% dos jovens disseram que se sentem sós agora ou já se sentiram sós em algum momento da vida. Entre aqueles que declararam solidão não desejada, três em cada quatro convivem com esse sentimento há mais de um ano, e quase metade vivem nesta situação há mais de três anos. Isso indica que não se trata de meros episódios passageiros, mas de processos prolongados, com impacto acumulativo na saúde mental.

A situação não é exclusiva de Espanha. A Organização Mundial da Saúde divulgou um relatório global que mostra que, entre os 13 e os 29 anos, entre 17% e 21% das pessoas referem sentir-se sós, sendo a percentagem mais elevada entre os 13 e os 19 anos. Em muitos países de rendimento baixo e médio, as taxas podem chegar a 24%, praticamente o dobro dos países com maior rendimento, onde rondam os 11%.

Estes dados internacionais reforçam a ideia de que a solidão juvenil é um problema global, com especial impacto em contextos de menor proteção social. Além disso, estima-se que até um em cada quatro adolescentes possa estar socialmente isolado, ou seja, com poucas ou nenhumas relações significativas, o que aumenta ainda mais o risco de sofrimento psicológico.

Outro dado relevante é o perfil dos grupos mais afetados. A incidência de solidão não desejada é maior entre jovens desempregados, em situação de pobreza, que sofreram bullying escolar ou laboral, que convivem com problemas de saúde física ou mental, que têm deficiência, origem migrante ou pertencem à comunidade LGBTI+. Nestes grupos, a solidão não desejada pode praticamente duplicar em relação aos seus pares.

Fatores que alimentam a solidão não desejada em jovens

Embora a qualidade e a quantidade das relações sociais sejam o elemento mais evidente para explicar a solidão juvenil, os estudos mostram que este é um fenómeno multicausal, em que se combinam fatores pessoais, familiares, educativos, laborais, económicos e de contexto social mais amplo.

As amizades surgem como a peça-chave. Ter menos relações de amizade do que se gostaria é o fator mais fortemente associado à solidão não desejada, chegando a multiplicar por quase 5 a probabilidade de o jovem se sentir só. Não se trata apenas do número de amigos, mas da sensação de poder contar com eles, de partilhar interesses e de ser aceite tal como se é.

No caso da família, a quantidade de relações (ou seja, o número de familiares próximos) não se mostrou tão determinante quanto a qualidade da relação. Jovens que têm contacto regular com a família, mas sentem falta de apoio emocional, escuta e compreensão, podem experimentar solidão com a mesma intensidade que quem vive afastado do núcleo familiar. A qualidade do vínculo – calidez, comunicação aberta, respeito – funciona como fator protetor essencial.

Chama a atenção que a maioria esmagadora dos jovens que se sentem sós afirma ter pelo menos uma pessoa a quem recorrer em caso de problema. Mais de 90% dizem poder pedir ajuda a alguém, um valor apenas ligeiramente inferior ao dos jovens que não se consideram sós. Isto mostra que a solidão não desejada não depende apenas de “não ter ninguém”, mas da perceção de desconexão e da falta de relações que façam sentido para a pessoa.

Relacionado:  Os meninos melhoram suas notas se dividirem aulas com muitas meninas

Os fatores sociais e estruturais completam o quadro. O nível de estudos, as condições económicas, o tipo de trabalho (ou sua ausência), o contexto de habitação, o tamanho da localidade e a experiência de discriminação ou estigma são variáveis que, combinadas, podem aumentar de forma significativa o risco de solidão não desejada.

Comunicação, bullying e confiança nos outros

Muitos jovens apontam as próprias dificuldades de comunicação como um elemento central da sua solidão. Há quem sinta que não sabe exprimir o que pensa ou o que precisa, quem tenha medo de ser julgado ou rejeitado, e quem se percecione como “pouco interessante” ou “chato” para os outros. Mesmo quando estas crenças não correspondem à realidade, condicionam a forma como o jovem se relaciona e reforçam o isolamento.

As experiências traumáticas, em especial o bullying escolar ou laboral, fragilizam ainda mais a confiança nos outros. Os dados mostram que a percentagem de jovens que passaram por situações de assédio é quase o dobro entre aqueles que sofrem solidão não desejada, em comparação com os que não referem este problema. O medo de voltar a ser magoado ou humilhado leva muitos adolescentes a retraírem-se e evitarem novas relações.

Esse ciclo de retraimento e proteção emocional acaba por alimentar a solidão. O jovem afasta-se para não sofrer, mas quanto mais se afasta, menos oportunidades tem de construir vínculos positivos, o que reforça a ideia de que “ninguém se importa” ou “ninguém me entende”. Sem apoio adequado, este padrão tende a cronificar-se e a afetar a visão que o jovem tem de si próprio e do mundo.

Neste contexto, as competências sociais básicas desempenham um papel importante. Saber escutar, expressar opiniões com respeito, gerir conflitos, estabelecer limites e pedir ajuda são habilidades que podem ser aprendidas e treinadas. Programas educativos e intervenções em escolas que promovem estas competências mostram efeitos positivos tanto na redução do bullying como na perceção de apoio social.

Ao mesmo tempo, é crucial trabalhar a autocompaixão e a autoestima, ajudando os jovens a perceber que ter dificuldades para se relacionar não é um defeito irreparável, mas algo que pode mudar, sobretudo se encontrarem ambientes seguros onde possam praticar, falhar e tentar de novo sem serem ridicularizados.

Sociedade digital, redes sociais e solidão

Vivemos numa sociedade profundamente digitalizada, onde grande parte da vida social dos jovens passa pelo telemóvel e pelas redes sociais. É tentador pensar que quanto mais tempo passam ligados ao ecrã, mais sós se sentem, mas os estudos apontam para uma realidade um pouco mais complexa: a frequência de uso das redes, por si só, não explica diretamente a solidão não desejada.

O que parece fazer diferença é o tipo de relação que se estabelece através das tecnologias. Quando os contactos são predominantemente online, superficiais, baseados em likes e comentários rápidos, e não se traduzem em encontros presenciais ou vínculos de confiança, aumenta a probabilidade de o jovem se sentir isolado. Os dados indicam que quem tem sobretudo amizades virtuais ou à distância pode ter o dobro da probabilidade de experimentar solidão não desejada.

A presencialidade emerge, assim, como um forte fator protetor. Jovens que se encontram cara a cara com amigos com regularidade, partilham atividades, estudam juntos, praticam desporto ou simplesmente “passam tempo” lado a lado, tendem a relatar níveis mais baixos de solidão. O contacto direto permite captar expressões faciais, tons de voz, gestos e matizes emocionais que nenhuma reação com emoticons consegue substituir.

Ao mesmo tempo, há riscos evidentes associados ao uso excessivo de ecrãs. A OMS e diversos especialistas alertam para a relação entre redes sociais, comparação constante, ciberbullying e sentimentos de exclusão. Ver diariamente vidas aparentemente perfeitas pode aumentar a sensação de inadequação, especialmente em adolescentes, para quem a aprovação dos pares é crucial.

Outro problema é que o tempo passado online muitas vezes substitui momentos de convivência com a família e amigos no mundo offline. Quando a maior parte do dia é ocupada por interações virtuais, reduz-se o espaço para experiências presenciais que poderiam nutrir o sentimento de pertença e mitigar a solidão. Isto é ainda mais preocupante quando o acesso a dispositivos acontece em idades cada vez mais precoces, antes de a criança ter desenvolvido recursos emocionais para gerir a exposição digital.

É útil considerar também estudos sobre amizades digitais e riscos no contexto adolescente, que exploram como relações mediadas por tecnologia podem afetar a sensação de conexão e apoio.

Escola, rendimento académico e nível educativo

O contexto escolar é um dos cenários onde a solidão pode tanto ser agravada como atenuada. A adolescência coincide com uma fase de mudanças intensas na escola: aumento das exigências académicas, novas turmas, professores diferentes, transições entre ciclos e, muitas vezes, pressão para definir escolhas de futuro.

Os estudos mostram que jovens com formação universitária tendem a reportar níveis mais baixos de solidão, o que pode estar relacionado com maior acesso a redes sociais diversificadas, mais oportunidades de participação em atividades culturais e maior exposição a ambientes estimulantes. No entanto, é importante sublinhar que repetência escolar, abandono precoce e baixo rendimento aparecem associados a maior prevalência de solidão não desejada.

Quem repetiu de ano pelo menos uma vez apresenta taxas de solidão cerca de 10 pontos percentuais acima de quem nunca repetiu. Esta diferença também se observa em jovens que abandonaram os estudos cedo, muitas vezes devido a dificuldades de aprendizagem, problemas familiares ou motivos económicos. Apesar disso, análises estatísticas mais finas sugerem que o rendimento, por si só, não é o fator decisivo, mas sim o que ele representa em termos de autoestima, oportunidades e integração social.

Na escola, os pares têm um papel central tanto no desenvolvimento de competências sociais como na proteção contra a solidão. A ausência de amizades próximas, conflitos continuados com colegas, exclusão de grupos ou experiências de humilhação em público podem marcar profundamente o adolescente, deixando cicatrizes que se prolongam para a vida adulta.

Por outro lado, escolas que promovem ambientes inclusivos, incentivam o trabalho em equipa, criam espaços seguros de diálogo e apostam na educação emocional podem reduzir significativamente o risco de solidão. Professores atentos, que percebem sinais de retraimento e se coordenam com a família e serviços de apoio, são uma peça importante na deteção precoce do problema. Também se podem utilizar recursos pedagógicos como filmes de animação sobre adolescência para trabalhar emoções em sala de aula.

Pobreza, contexto familiar e habitação

As condições económicas exercem uma influência forte sobre a probabilidade de um jovem sentir solidão não desejada. Dados de estudos europeus mostram que, em lares com dificuldades para chegar ao fim do mês, a prevalência de solidão quase duplica em comparação com famílias que vivem com mais folga financeira.

Relacionado:  As 11 coisas que fazemos no Facebook e que revelam baixa auto-estima

A pobreza não impacta apenas o acesso a bens materiais, mas também as oportunidades de socialização. Jovens com menos recursos podem ter mais dificuldade para participar em atividades desportivas, culturais ou de lazer pagas, viajar, sair com amigos ou até dispor de um espaço próprio em casa para receber colegas. Isto limita a construção de relações de proximidade e aumenta o risco de isolamento.

Apesar disso, o fator decisivo dentro da família continua a ser a qualidade do vínculo. Relações familiares calorosas, com boa comunicação, escuta ativa e apoio emocional consistente protegem contra uma ampla gama de problemas, incluindo a solidão. Em contextos economicamente desfavorecidos, a coesão e o apoio dentro de casa podem atenuar de forma significativa o impacto da precariedade.

Em relação à habitação, nem sempre a emancipação significa maior solidão. Os estudos não encontram diferenças enormes entre jovens que vivem sozinhos, em casa própria ou em quarto partilhado, e aqueles que permanecem com os pais. No entanto, jovens que residem com a família tendem a relatar níveis ligeiramente mais baixos de solidão, provavelmente pela presença constante de figuras de referência.

Outra variável relevante é o tamanho da localidade. Curiosamente, a prevalência de solidão entre jovens que vivem em cidades de tamanho médio parece ser maior do que entre os que residem em grandes centros urbanos ou em zonas rurais. Em municípios médios, pode haver menos ofertas culturais e de lazer do que nas grandes cidades e, ao mesmo tempo, menos relações de proximidade e apoio comunitário do que em vilas pequenas, criando uma espécie de “terra de ninguém” em termos de suporte social.

Saúde física, saúde mental e solidão

A relação entre solidão e saúde é bidirecional: a solidão piora a saúde mental e física, e problemas de saúde aumentam o risco de solidão. Jovens que se percecionam com saúde frágil, que convivem com doenças crónicas ou com limitações funcionais tendem a relatar níveis mais altos de isolamento e tristeza.

Nos estudos com jovens que sofrem solidão não desejada, mais de metade avaliam a sua saúde global como má, muito má ou apenas razoável, enquanto entre os que não relatam solidão a maioria classifica a saúde como boa ou muito boa. Além disso, quem vive com algum problema de saúde mental, seja percebido subjetivamente ou diagnosticado, apresenta uma probabilidade cerca de 2,5 vezes maior de sofrer solidão não desejada.

A solidão está fortemente associada a sintomas de ansiedade e depressão. Em revisões sistemáticas que analisaram mais de 60 estudos com crianças e jovens entre os 4 e os 21 anos, verificou-se que aqueles que se sentem sós podem ter até três vezes mais probabilidade de desenvolver depressão no futuro, e que este efeito pode prolongar-se por vários anos.

A duração da solidão parece ser ainda mais relevante do que a sua intensidade. Jovens que permanecem isolados por longos períodos apresentam maior risco de problemas psicológicos persistentes. A solidão prolongada associa-se também a má qualidade do sono, alterações fisiológicas ligadas ao stress crónico e maior vulnerabilidade a doenças físicas.

Outro ponto muito preocupante é a ligação entre solidão não desejada e pensamentos ou comportamentos autolesivos. Entre os jovens que se sentem sós, as ideias suicidas e as condutas de autolesão aparecem com uma frequência entre 2,5 e 3 vezes superior à dos jovens que não relatam solidão. Em alguns estudos, metade dos jovens com solidão não desejada referiram ter tido pensamentos suicidas.

Discriminação, estigma e grupos especialmente vulneráveis

A solidão juvenil não se distribui de forma homogénea. Certos grupos sofrem de forma desproporcionada por estarem expostos a discriminação, estigma e exclusão sistemática. Entre eles, destacam-se jovens com deficiência, pertencentes à comunidade LGBTI+, pessoas migrantes ou filhas de pais nascidos no estrangeiro e adolescentes que vivem em contextos de forte desigualdade social.

No caso dos jovens com deficiência, mais de metade relata solidão não desejada. Além dos desafios próprios da condição de saúde, muitos enfrentam barreiras arquitetónicas, falta de adaptações na escola e no trabalho, preconceitos e infantilização por parte do entorno, o que limita as oportunidades de participação plena na vida social.

Jovens LGBTI+ também apresentam taxas significativamente mais elevadas de solidão, quase o dobro da registada entre jovens heterossexuais em alguns estudos. O medo de rejeição familiar, a possibilidade de bullying na escola, comentários homofóbicos ou transfóbicos e a ausência de espaços seguros para viver a própria identidade contribuem para um sentimento profundo de não pertença.

Entre jovens de origem migrante, a solidão combina-se com processos de duelo cultural e ruptura de redes sociais. Mudar de país, enfrentar barreiras linguísticas, lidar com burocracias e, muitas vezes, com racismo e xenofobia, aumenta a sensação de estar “fora de lugar”. A prevalência de solidão neste grupo chega a ser mais de 40% superior à dos jovens nascidos no país de acolhimento.

Estes fatores intersetam-se frequentemente com a pobreza e a falta de acesso a recursos de apoio psicológico. Quando múltiplas formas de vulnerabilidade se acumulam na mesma pessoa – por exemplo, uma jovem migrante, LGBTI+ e com baixa renda – o risco de solidão não desejada e de problemas de saúde mental cresce de forma exponencial, exigindo respostas integradas e sensíveis à diversidade. Para entender melhor as raízes, ver também os tipos de discriminação que alimentam exclusão social.

Impacto da pandemia de COVID-19 na solidão juvenil

A pandemia de COVID-19 funcionou como um amplificador poderoso da solidão em crianças, adolescentes e jovens adultos. O fecho de escolas, o cancelamento de atividades presenciais, as restrições de contacto e o medo do contágio criaram uma situação de isolamento social generalizado sem precedentes recentes.

Revisões rápidas publicadas em revistas científicas especializadas apontam que o isolamento durante a pandemia está ligado a um aumento significativo de sintomas de depressão e ansiedade em jovens. Em vários estudos, a solidão medida durante os confinamentos mostrou-se um preditor robusto de problemas de saúde mental meses e até anos depois.

Uma das conclusões mais relevantes é que o tempo de duração do isolamento importa muito. Quanto mais prolongado foi o período em que a criança ou adolescente se viu privado de contactos presenciais regulares com colegas, professores e outros adultos de referência, maior parece ser o risco de dificuldades emocionais posteriores, incluindo perturbações de ansiedade social e dificuldades para retomar a vida quotidiana.

Embora muitos jovens tenham conseguido recuperar conexões ao regressar à escola e às atividades, para outros a sensação de solidão persistiu. Em particular, aqueles que já eram mais vulneráveis antes da pandemia – por exemplo, quem tinha problemas de saúde mental prévios, vivia em contextos de alto stress ou já sofria bullying – enfrentaram mais obstáculos para reconstruir redes de apoio.

Relacionado:  Tais são verdadeiras amizades, em 9 características

Especialistas sublinham a necessidade de preparar sistemas educativos e de saúde para uma maior procura de apoio psicológico pós-pandemia. Isto inclui estratégias universais de promoção do bem-estar nas escolas, campanhas públicas de sensibilização, identificação precoce de jovens em sofrimento e reforço dos serviços especializados para quem precisa de acompanhamento continuado.

Como a solidão afeta a vida diária de crianças e adolescentes

Na infância e na adolescência, o vínculo com figuras significativas e a pertença a grupos são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e emocional. Quando estas ligações falham, é comum surgirem tristeza, tédio, irritabilidade, sensação de vazio e uma perceção de exclusão que corrói a autoestima.

Crianças que se sentem sozinhas tendem a interpretar a realidade social de forma negativa. Podem pensar que os colegas não gostam delas, que são menos capazes ou menos interessantes, mesmo sem provas objetivas disso. Esta visão distorcida alimenta o retraimento e a evitação de situações sociais, reforçando ainda mais a solidão.

A longo prazo, a solidão infantil e adolescente é um fator de risco para saúde mental e física. Está associada a maior probabilidade de desenvolver ansiedade, depressão, ideação suicida, consumo de substâncias e problemas de sono. No plano físico, pode relacionar-se com alterações hormonais e do sistema imunitário ligadas ao stress crónico.

Do ponto de vista académico, a solidão também cobra um preço. Jovens que se sentem sós têm maior probabilidade de apresentar notas mais baixas, falta de motivação, absentismo escolar e abandono precoce dos estudos. A OMS destaca que alunos que relatam solidão têm cerca de 22% mais probabilidade de obter resultados escolares inferiores, o que influencia negativamente as oportunidades futuras de emprego.

Quando a solidão emocional se instala de forma persistente, não é raro que surjam quadros depressivos. A pessoa perde o interesse pelas atividades que antes gostava, vê o futuro de forma pessimista e sente que nada do que faça vai melhorar a situação. Sem intervenção, este círculo vicioso pode tornar-se cada vez mais difícil de quebrar.

Fatores de risco e fatores protetores

Vários elementos podem atuar como fatores de risco ou de proteção face à solidão juvenil, dependendo de como se articulam na vida de cada jovem. Entre os fatores protetores, destacam-se as relações familiares de qualidade, a existência de pelo menos um amigo íntimo, a participação em grupos (desporto, cultura, associações) e o acesso a adultos de confiança fora da família, como professores ou treinadores.

Dentro da família, a comunicação aberta e a calidez parental são especialmente importantes. Pais e cuidadores que escutam sem julgar, validam as emoções do filho e oferecem apoio consistente ajudam a reduzir o impacto de outros fatores negativos, como dificuldades económicas ou conflitos na escola. Em contraste, vínculos familiares marcados por frieza, crítica constante ou falta de disponibilidade emocional aumentam a probabilidade de solidão.

As relações com os pares também podem proteger ou fragilizar. Ter amigos que acolhem, apoiam e partilham interesses diminui o risco de solidão, enquanto a rejeição, a exclusão e o bullying o aumentam de forma dramática. Fatores como falta de habilidades sociais, perceção (real ou imaginada) de ter poucas competências para interagir e a convicção de que os outros o avaliam negativamente funcionam como gatilhos para o isolamento.

As tecnologias, por sua vez, têm um papel ambivalente. Podem facilitar o contacto, especialmente quando as distâncias geográficas são grandes, mas também podem substituir interações presenciais ricas por trocas superficiais. O uso excessivo de redes sociais, junto com experiências negativas online, como ciberbullying, comparação social intensa ou exclusão em grupos digitais, demonstrou contribuir para aumentar sentimentos de solidão.

Entre os fatores de risco mais robustos encontram-se ainda o desemprego juvenil, a pobreza, a discriminação, a presença de problemas de saúde mental e a vivência de eventos traumáticos. Quanto mais destes elementos se acumulam, maior a probabilidade de o jovem sentir que não pertence a lugar nenhum e que não tem com quem contar.

O que pode ser feito: prevenção, deteção e intervenção

Responder à solidão juvenil exige uma abordagem em vários níveis: individual, familiar, escolar, comunitário e de políticas públicas. Não basta dizer a um adolescente para “sair mais de casa” ou “fazer amigos”; é necessário criar condições reais para que se possa conectar de forma segura e significativa com outras pessoas.

No plano individual, uma atitude proativa é importante, mesmo quando não apetece. Participar em atividades de grupo ligadas a interesses pessoais (aulas de música, desporto, voluntariado, clubes de leitura, grupos juvenis) pode abrir portas a novas amizades. Manter algum contacto com pessoas conhecidas, retomar conversas com amigos antigos ou aceitar convites simples, como tomar um café, são pequenos passos que ajudam a quebrar o ciclo de isolamento.

Em momentos de solidão, também pode ser útil ressignificar o tempo sozinho. Dedicar-se a atividades que tragam prazer ou relaxamento – ler, ouvir música, tomar um banho demorado, desenhar, escrever – não substitui as relações humanas, mas ajuda a cuidar de si e a reduzir a sensação de vazio. É importante, porém, que isto não se transforme em fuga permanente ao contacto social.

Quando o sofrimento é intenso e persistente, procurar ajuda profissional é fundamental. Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde mental podem ajudar a identificar padrões de pensamento que reforçam a solidão, treinar habilidades sociais, trabalhar traumas passados (como bullying) e tratar quadros de ansiedade ou depressão associados.

Família e escola têm um papel de vigilância e suporte. Pais, professores e outros adultos significativos devem estar atentos a sinais como retraimento súbito, mudanças bruscas de humor, queda no rendimento escolar, alterações de sono e alimentação, ou comentários negativos recorrentes sobre si próprio. Quando as estratégias internas da família ou da escola não bastam para aliviar o mal-estar, é recomendável encaminhar o jovem para apoio especializado.

Em termos de políticas públicas, diferentes organizações internacionais recomendam incluir a saúde mental dos adolescentes como prioridade. Isto implica integrar o cuidado psicológico na atenção primária, fortalecer redes comunitárias, formar adultos que trabalham com jovens em competências de escuta e primeira ajuda emocional, e distribuir melhor os recursos destinados à saúde mental juvenil, que hoje, em muitos países, representam uma fração mínima do orçamento total de saúde.

A solidão em jovens e a saúde mental estão profundamente entrelaçadas, e o aumento global deste fenómeno em plena era digital revela que não basta estarmos conectados por dispositivos para nos sentirmos realmente ligados. Reforçar as relações presenciais, garantir ambientes familiares e escolares acolhedores, combater o bullying e a discriminação e facilitar o acesso a apoio psicológico são passos essenciais para que adolescentes e jovens adultos possam construir vínculos sólidos, desenvolver a sua identidade com segurança e projetar um futuro com mais bem-estar e menos isolamento.

Related article:
Incels: quem são e como os membros deste grupo pensam