A era das dietas: da fome ancestral ao culto da magreza

Última actualización: maio 12, 2026
  • A abundância moderna de alimentos industriais, somada ao sedentarismo, criou um ambiente obesogénico em choque com o ideal cultural de magreza extrema.
  • Ao longo da história, dietas cíclicas e modas alimentares foram moldadas por religião, ciência, economia, celebridades e, hoje, redes sociais.
  • A evidência científica aponta que não existe uma dieta perfeita; o fator decisivo para emagrecer é o défice calórico sustentável e um padrão alimentar globalmente equilibrado.
  • Quando vividas como culto e identidade rígida, as dietas deixam de ser solução e tornam-se parte do problema, afastando-nos de uma relação mais livre e informada com a comida.

Historia das dietas

A chamada “era das dietas” não nasceu ontem nem começou com o Instagram. A obsessão contemporânea com a balança é o capítulo mais recente de uma história longa, cheia de extremos, modas passageiras, crenças religiosas, interesses económicos e, claro, muita desinformação. Olhar para trás ajuda a perceber por que razão o mundo está cada vez mais pesado, por que surgiram tantas dietas diferentes e como acabámos a tratar a alimentação quase como uma religião.

Ao longo dos séculos, o ideal de corpo, o acesso aos alimentos e o avanço da ciência foram empurrando o pêndulo entre a fome e a abundância, entre a gordura vista como sinal de fertilidade e riqueza, e a magreza idolatrada como sinónimo de saúde, pureza e sucesso. Hoje vivemos um paradoxo curioso: nunca tivemos tanta comida disponível, tanta informação e tantos “planos milagrosos”, e ao mesmo tempo nunca foi tão difícil ter uma relação tranquila com a comida e com o próprio corpo.

Das origens da fome à abundância industrial

Durante milénios, o maior problema da humanidade não foi engordar, foi sobreviver. Oscilações entre tempos de fartura e longos períodos de escassez faziam da gordura corporal uma espécie de seguro de vida. Vestígios arqueológicos de figuras femininas com formas generosas sugerem que, em muitas culturas antigas, ter reservas de gordura era desejável, sobretudo associada à fertilidade.

Na Antiguidade clássica, sobretudo na Grécia antiga, o cenário começou a mudar. Surgem as primeiras reflexões sistemáticas sobre alimentação, corpo e saúde. O termo grego “diaíta” não significava apenas o que se comia, mas todo um estilo de vida: rotina diária, sono, movimento, ambiente. Para os gregos, cuidar do corpo era também cuidar do carácter.

Hipócrates, considerado o pai da medicina, foi um dos primeiros a ligar excesso de peso e doença. Defendia uma alimentação moderada, exercício intenso antes das refeições e até práticas hoje reconhecidas como problemáticas, como provocar o vómito, para controlar a obesidade (veja associações de anorexia e bulimia). Mais tarde, médicos como Soranus de Éfeso sugeriam infusões e laxantes para emagrecer, antecipando uma lógica de “remédio rápido” que nos acompanha até hoje.

Na cultura romana, marcada por banquetes exuberantes, já se percebia que comer demais tinha custos. Autores como Horácio alertavam que o excesso de comida “embrutece o espírito” e prejudica o corpo. Ainda assim, a realidade era dominada por desigualdade: enquanto alguns exageravam à mesa, grande parte da população continuava exposta à fome. Já se criticavam, por exemplo, as dietas ricas em carne e os seus excessos.

No Egipto antigo encontramos talvez uma das primeiras “recomendações dietéticas” registadas. Um papiro menciona orientações de moderação como beber um copo de água para saciar a sede, preferir um punhado de vegetais para fortalecer o coração e optar por porções pequenas em vez de grandes banquetes. O princípio da moderação e a ideia de alimentação saudável estão lá há milhares de anos.

Religião, culpa e o jejum como virtude

Durante a Idade Média europeia, a alimentação ficou profundamente moldada pela religião. Comer em excesso era classificado como pecado (gula), e o corpo era visto como algo que facilmente corrompia a alma. O jejum tornava-se, então, uma ferramenta de purificação espiritual e de disciplina moral.

Certas formas extremas de restrição alimentar, sobretudo em mulheres santificadas, hoje seriam vistas como distúrbios alimentares. Há descrições de longos períodos de privação quase total de comida, interpretados na época como êxtase religioso, mas que à luz da ciência atual se parecem muito com quadros graves de anorexia, às vezes designados como “anorexia mirabilis”.

O jejum, portanto, não nasceu como estratégia de emagrecimento ou “detox” moderno. Ele estava ligado à penitência, ao controlo dos desejos e à tentativa de aproximar-se do divino. Este pano de fundo moral ajuda a explicar por que hoje, em pleno século XXI, práticas de jejum ainda são romanticamente associadas à ideia de limpeza, superioridade moral ou “força de vontade” exemplar.

Em muitas tradições religiosas, a comida continua carregada de simbolismo: comer carne ou não em certos dias, jejuar em datas específicas, usar a mesa como espaço de partilha espiritual e social. A moralidade “colada” à comida nunca desapareceu; apenas foi sendo reciclada em discursos modernos de “limpo versus sujo”, “permitido versus proibido”.

Primeiros livros de dieta e o despertar da preocupação estética

À medida que a Europa se aproxima do Renascimento e da modernidade, surgem os primeiros tratados de dieta com intenção explícita de prolongar a vida ou controlar o peso. Em meados do século XVI, Luigi Cornaro, um veneziano que lutava com a obesidade, escreve sobre como reduziu drasticamente a sua ingestão diária de comida e vinho e viveu até idade avançada, inspirando milhares de leitores e debates sobre emagrecimento.

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No século XVIII, médicos como George Cheyne e outros começam a ligar o que se come a doenças “dos nervos” e do estilo de vida, defendendo regimes à base de leite e vegetais, ou dietas vegetarianas por razões morais e de saúde. Já se discutia o impacto de consumir muitos animais criados em confinamento, algo surpreendentemente atual.

Na mesma época, aparecem também críticas a padrões alimentares muito ricos em carne e açúcar, como fez Giacomo Castelvetro ao comparar a dieta inglesa com a italiana. A ideia de que certos padrões regionais (como o que mais tarde se chamou “dieta mediterrânica”) poderiam ser mais saudáveis começou a ganhar corpo.

Com a Revolução Industrial e o crescimento das cidades, a alimentação passou a ser também um marcador de classe social. Ser “corpulento” era sinal de riqueza e poder, algo especialmente visível na era Vitoriana. Comida abundante era privilégio da elite; o pobre raramente tinha o luxo de “engordar demais”.

Ao mesmo tempo, as autópsias e os avanços da medicina iam revelando ligações entre gordura corporal, doenças cardíacas e mortalidade precoce. Esta tensão entre a gordura como símbolo de status e a gordura como risco de saúde alimentou debates intensos no século XIX e preparou o terreno para o boom de dietas que estava para chegar.

Revolução agrícola, indústria alimentar e o pêndulo da fome para o excesso

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo dá um salto produtivo sem precedentes. A revolução agrícola e o desenvolvimento da indústria alimentar permitiram, pela primeira vez na história, produzir alimentos em quantidade semelhante ou superior às necessidades globais. As previsões catastróficas de Thomas Malthus, que temia que a população crescesse mais rápido do que a produção de comida, ficaram em xeque.

A indústria não se limitou a produzir mais, passou a produzir diferente. Alimentos cada vez mais processados, produtos prontos ou semi-prontos, snacks para “enganares o estômago”, comidas rápidas, refeições congeladas e uma infinidade de produtos embalados começaram a invadir as prateleiras e as mesas.

Com mais membros da família a trabalhar fora de casa, a preparação das refeições foi sendo terceirizada. Empresas especializadas ocuparam o lugar das panelas domésticas, e o marketing entrou com força total para tornar sedutores os novos produtos: embalagens apelativas, campanhas publicitárias agressivas e uma promessa constante de conveniência.

Essa cadeia expandida envolveu não só produtores de alimentos, mas também fabricantes de aditivos, embalagens e sistemas de transporte e conservação. Tudo para garantir que uma imensa quantidade de produtos calóricos, saborosos e baratos pudesse circular rapidamente entre fábricas, supermercados e consumidores.

Em paralelo, multiplicaram-se restaurantes e pontos de venda de comida rápida, com pratos altamente energéticos e muito saciantes. Num mundo que carregava na memória coletiva séculos de escassez, ter tanta comida acessível era quase uma celebração da vitória sobre a fome. Mas o pêndulo balançou demais: “de comer de menos passámos a comer de mais”.

Obesidade em massa e padrões de beleza cada vez mais estreitos

Com o avanço da urbanização e o trabalho sedentário, a equação ficou explosiva: mais calorias, menos movimento. A obesidade começou a disparar. Hoje, a Organização Mundial da Saúde estima centenas de milhões de adultos com obesidade, e centenas de milhões de crianças e adolescentes com excesso de peso em todo o mundo. O fenómeno é agravado pelo próprio trabalho sedentário e pelas rotinas modernas.

Mesmo reconhecendo as limitações do IMC, os dados epidemiológicos deixam claro que o excesso de peso está associado a riscos elevados: doença coronária, hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes tipo 2, vários tipos de cancro, entre outros. Em média, fala-se numa redução de alguns anos de esperança de vida quando a obesidade se instala.

Curiosamente, a saúde nem sempre é a principal motivação para perder peso. Há quem faça dieta apenas por razões estéticas, de autoimagem ou pressão social. A cultura contemporânea impõe padrões corporais estreitos, e quem não se enquadra sente frequentemente culpa, vergonha e exclusão. Para quem procura estratégias, há várias abordagens, como as 50 maneiras de perder peso de forma saudável, embora a eficácia dependa sempre da adesão.

Ao mesmo tempo em que a comida industrial inundava o mercado, o ideal de beleza foi ficando cada vez mais magro. As curvas generosas começaram a ser vistas como “excesso”; rostos angulosos, cinturas finas e corpos secos passaram a ser o objetivo. A equação não fechava: ambiente obesogénico de um lado, culto à magreza do outro.

Esse conflito abriu espaço para a proliferação de dietas de emagrecimento como forma de “corrigir” os exageros. Entre o fim dos anos 1960 e até hoje, multiplicaram‑se planos com promessas rápidas: comprimidos milagrosos, poções, combinações “mágicas” de alimentos, jejuns extremos, regimes baseados em fases da lua e uma lista interminável de ideias vendidas como solução definitiva.

Do Lord Byron à Imperatriz Sissi: celebridades, dietas e extremos

Muito antes das influencers do Instagram, celebridades já ditavam modas alimentares absurdas. Um caso clássico é o do poeta romântico Lord Byron, verdadeiro ídolo do século XIX. Obcecado em perder peso, ele passava longos períodos em jejum para depois comer compulsivamente ao jantar.

Byron ficou famoso pela chamada “dieta do vinagre”, em que bebia vinagre antes das refeições para diminuir o apetite e, supostamente, “dissolver gordura”. Chegou a usar várias camadas de roupa para suar mais. O resultado? Perdeu muito peso, mas a estratégia era arriscada e pouco eficaz. Já nessa época se relatavam efeitos graves associados a esse tipo de prática.

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Na corte europeia, a Imperatriz Elisabeth da Áustria, a célebre Sissi, tornou-se símbolo de um ideal de magreza doentio. A sua cintura finíssima era mantida com dietas extremamente restritivas, muito exercício físico e recurso a laxantes e eméticos. Os registos sugerem que sofria de anorexia e bulimia, alternando longos períodos de restrição com episódios de compulsão por doces e gelados.

Esses exemplos mostram como a pressão estética pode levar a comportamentos alimentares autodestrutivos, normalizados quando partem de figuras admiradas. Ainda hoje, atrizes e cantoras relatam dietas radicais para se adaptarem a papéis de cinema ou a exigências de carreira, equilibrando‑se no limite entre o profissional e o perigoso.

No mundo atual, continuam a surgir dietas específicas associadas a celebridades: regimes veganos ultra restritivos para perder muitos quilos em poucas semanas, dietas de apenas água e aveia por curtos períodos sob supervisão médica, planos que trocam refeições por potes de comida de bebé e esquemas que dividem o prato em percentagens fixas de macronutrientes (como 40% hidratos, 30% proteína, 30% gordura) para “controlar” a insulina.

Também ganharam notoriedade dietas como a Sirtfood (rica em alimentos que ativariam sirtuínas), dietas por cores (um dia só alimentos de uma cor), ou métodos como Montignac, que proíbem uma longa lista de alimentos baseando‑se no índice glicémico. Embora algumas destas abordagens possam ter elementos com lógica nutricional, o uso extremo e descontextualizado costuma levar a deficiências, frustração e efeito ioiô.

A explosão de modas: low‑carb, Atkins, Dukan, paleo, detox e jejuns

O século XX e o início do XXI foram palco de uma verdadeira corrida às “dietas da moda”. Nos anos 1910, obras que popularizavam a contagem de calorias apresentavam a perda de peso como puro exercício de aritmética: ingerir menos do que se gasta. Nos anos 1930, surgiam teorias de combinação de alimentos em ácidos e alcalinos, origem de versões modernas de “dietas alcalinas”.

No pós‑guerra, a epidemia de doenças cardiovasculares impulsionou recomendações para reduzir gorduras, especialmente saturadas. Pesquisadores como Ancel Keys defenderam padrões mais próximos do mediterrânico, com menos gordura animal, o que levou o mercado a lançar produtos “light” e sem gordura, muitas vezes compensados com mais açúcar. O debate sobre gorduras inclui hoje até a discussão sobre ácidos graxos essenciais e tipos de gordura.

Ao mesmo tempo, a contra‑corrente low‑carb crescia. Desde o século XIX, com William Banting a relatar a sua dieta pobre em hidratos de carbono, surgiram versões cada vez mais populares: a “Drinking Man’s Diet”, a dieta da toranja, planos com ingestão de areia esterilizada (sim, chegou a acontecer) e, mais tarde, a famosa dieta Atkins, relançada com enorme sucesso nos anos 1970 e 2000.

A dieta Atkins defendia um consumo muito baixo de hidratos de carbono e alto de gorduras, prometendo não só emagrecimento como um estilo de vida permanente. Apesar da controvérsia e de críticas da comunidade científica, milhões de pessoas a seguiram, e o termo low‑carb ganhou o mundo, gerando inúmeras variações e negócios associados.

Já no início do novo milénio, novas estrelas apareceram: dietas hiperproteicas como Dukan e South Beach, o movimento paleo, regimes detox à base de sumos e, mais recentemente, o jejum intermitente. Em comum, todas prometem ser a “resposta” definitiva aos males da alimentação moderna, muitas vezes com apoio de celebridades e influenciadores.

Curiosamente, nenhuma dessas dietas consegue, a longo prazo, provar superioridade absoluta sobre outras estratégias quando o objetivo é emagrecer. A evidência mais robusta mostra que o fator decisivo é o défice calórico mantido no tempo, não a distribuição específica de macronutrientes. Dietas funcionam enquanto a pessoa consegue segui‑las. Quando a adesão cai, o peso volta.

A dieta como identidade, culto e negócio

Se antes as dietas eram meramente “uma fase” para perder alguns quilos, hoje transformaram‑se em identidades. Não é raro ouvir “eu sou low‑carb”, “eu sou paleo”, “eu faço jejum intermitente” como se fosse um traço de personalidade. Grupos formam‑se em torno de regras alimentares rígidas, com linguagem própria, gurus e, muitas vezes, forte intolerância a quem pensa diferente.

Esta dinâmica tem muito de religioso: há alimentos “puros” e “impuros”, permitidos e proibidos, rituais (horas exatas para comer ou não comer), promessas de salvação (mais saúde, longevidade, corpo perfeito) e até heresias (comer pão, açúcar, glúten, carne ou o vilão da vez, dependendo da tribo).

Nas últimas décadas, empresas e profissionais perceberam que o medo do ganho de peso e o desejo de se encaixar nos padrões são um negócio bilionário. Programas em grupo, suplementos caros, refeições pré‑prontas, batidos substitutos de refeição, comprimidos “queimadores de gordura” e uma infinidade de produtos são vendidos como atalhos.

Modelos de negócio multinível, como o de grandes marcas de suplementos, exploram não só a vulnerabilidade de quem quer emagrecer, mas também a de quem quer ganhar dinheiro a vender esperança. O discurso é carregado de emoção e promessas de transformação total da vida, muitas vezes com base científica fraca ou distorcida.

As redes sociais aceleraram tudo isto. Plataformas visuais como Instagram e TikTok permitiram que qualquer pessoa com um corpo “aspiracional” se tornasse referência em alimentação e fitness, mesmo sem formação em saúde. O algoritmo tende a mostrar o que queremos ver, reforçando crenças pré‑existentes e criando bolhas de desinformação.

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Estudos mostram que uma parte relevante dos utilizadores, especialmente mulheres, sente piora da autoestima ao comparar o próprio corpo com o de influencers. Entre comparações constantes, filtros e narrativas de sucesso “sem esforço”, o terreno fica fértil para distorções da autoimagem, distúrbios alimentares e adesão a dietas extremamente restritivas.

Quando a dieta deixa de ser solução e passa a ser parte do problema

Apesar de tantas promessas, as dietas restritivas falham de forma sistemática a longo prazo. Investigações recentes mostram que a maioria das pessoas recupera o peso perdido ao fim de alguns meses, muitas vezes com “bónus” extra, especialmente quando o plano é muito rígido ou se baseia em exclusões radicais de alimentos ou grupos alimentares.

Podemos agrupar as dietas modernas em dois grandes blocos. O primeiro reúne as dietas explicitamente “para emagrecer”, apoiadas por equipas de marketing, empresas e até alguns profissionais de saúde. O segundo inclui regimes abraçados por motivações filosóficas, éticas ou espirituais (por exemplo, certos vegetarianismos, paleo, jejum por “longevidade”), que vão além da pura perda de peso, mas que também se organizam em torno de proibições e regras rígidas.

Em ambos os casos, continua a mesma lógica mecanicista: reduzir a alimentação a uma lista de mandamentos, como se o ser humano fosse uma máquina simples, desligada do contexto emocional, social e cultural em que come. A alimentação deixa de ser um acto integrado de partilha, tradição e prazer, para se tornar um plano terapêutico permanente.

Há efeitos colaterais claros: exclusões alimentares arbitrárias podem levar a deficiências nutricionais; a experiência de comer em grupo é empobrecida porque “não posso isso, não posso aquilo”; o orçamento sobe, já que “fazer dieta” tende a custar significativamente mais do que comer de forma equilibrada com alimentos comuns.

A alimentação passa ainda a ser vivida em modo “medicalizado”. Em vez de cidadãos informados a fazer escolhas conscientes, muitos acabam a sentir‑se pacientes crónicos, eternamente em tratamento. Tudo é monitorizado, pesado, medido, registado em apps, e qualquer deslize gera culpa e sensação de fracasso.

Isto não significa que não haja lugar para dietas clínicas bem estruturadas. Em contextos como diabetes, doença cardiovascular, doença celíaca ou alergias, ajustes específicos são essenciais e salvam vidas. Mas fora de indicações médicas, submeter‑se voluntariamente a restrições extremas e prolongadas tende a ser mais prejudicial do que benéfico.

O que a ciência realmente mostra sobre perder peso e viver melhor

Com décadas de pesquisa acumulada, hoje sabemos com bastante clareza que não existe uma “dieta perfeita” universal. O que funciona para uma pessoa pode ser insustentável para outra. O fator mais consistente para o sucesso na perda de peso continua a ser o défice calórico mantido no tempo, qualquer que seja o rótulo do plano.

Experiências controladas ilustram bem isto. Em ensaios em que indivíduos seguem dietas aparentemente “horríveis”, mas energeticamente controladas, é possível perder gordura corporal e melhorar marcadores metabólicos apenas porque a ingestão total de energia é inferior ao gasto. Não é uma defesa dessas dietas, mas uma forma de mostrar que o mecanismo central é o balanço energético.

Diferenças entre low‑carb, low‑fat, mediterrânica, vegetariana e outras abordagens aparecem mais na adesão do que na “magia” metabólica. Se uma pessoa se sente bem a reduzir hidratos de carbono e consegue seguir esse padrão por muito tempo, é provável que obtenha resultados. O mesmo vale para quem se adapta melhor a uma dieta com mais hidratos e menos gordura, desde que as calorias totais sejam adequadas.

Do ponto de vista de saúde global, padrões alimentares com mais alimentos minimamente processados, vegetais, frutas, leguminosas, gorduras de qualidade e menos produtos ultra‑processados tendem a trazer benefícios consistentes. O problema não é o pão ou o arroz em si, mas o conjunto de hábitos, porções, sedentarismo e contexto social.

Como espécie, somos incrivelmente adaptáveis. Povos distintos prosperaram com dietas muito variadas: algumas mais ricas em hidratos, outras com mais gordura, algumas com muito peixe, outras sem laticínios. Se existisse uma única forma correcta de comer, já a teríamos identificado de forma inequívoca e não haveria espaço para tantas dietas concorrentes.

O que a ciência não apoia é a demonização absoluta de alimentos isolados, transformando-os em “venenos” universais. Açúcar, gordura, glúten ou lacticínios podem ser problemáticos em excesso ou para pessoas com condições específicas, mas não são, por si só, o mal absoluto. A narrativa do “inimigo único” é sedutora, mas é simplista.

Depois de percorrer esta longa história, fica mais fácil entender por que vivemos na tal “era das dietas”: saímos de um mundo de fome para um mundo de abundância, mantivemos uma herança moral e religiosa em torno da comida, somámos a pressão estética, interesses económicos poderosos e a velocidade das redes sociais. No meio de tanta promessa e tanto ruído, o caminho mais sensato continua a passar por equilíbrio, variedade, consciência e, sobretudo, por recuperar uma relação menos neurótica e mais humana com aquilo que comemos.

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