Espaços de referência do envelhecimento ativo e saudável

Última actualización: janeiro 29, 2026
  • O envelhecimento populacional exige sistemas de saúde, proteção social e cidades preparados para apoiar a autonomia e a qualidade de vida.
  • Ambientes amigos da idade e modelos integrados de cuidados, como o centro sociossanitário de Aretxabaleta, colocam a pessoa no centro da intervenção.
  • Valência destaca-se como espaço de referência europeu em envelhecimento ativo, articulando inovação, investigação e participação social.
  • Redes globais e europeias de investigação e cidades amigas das pessoas idosas criam ecossistemas que podem ser replicados noutros territórios.

espacio de referencia del envejecimiento

Viver mais anos é hoje uma realidade em praticamente todos os países, mas esse aumento da longevidade vem acompanhado de um enorme desafio: adaptar sistemas de saúde, proteção social, cidades e habitações para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e boa qualidade de vida. A forma como organizamos os cuidados, planeamos os territórios e desenhamos as políticas públicas determina se esses anos extra serão vividos com saúde ou marcados por fragilidade e dependência.

O conceito de “espaço de referência do envelhecimento” surge precisamente desta necessidade de articular investigação, inovação, serviços de saúde e serviços sociais, urbanismo, tecnologia e participação cidadã para construir ambientes que apoiem o envelhecimento ativo e saudável. Regiões como Valência, projetos piloto como o centro sociossanitário de Aretxabaleta ou redes globais como a iniciativa da OMS de Cidades Amigas das Pessoas Idosas mostram como é possível criar ecossistemas que sirvam de laboratório e modelo para outros territórios.

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Dados globais sobre envelhecimento e o novo cenário demográfico

O envelhecimento da população está a acontecer num ritmo sem precedentes, muito mais rápido do que em décadas anteriores, obrigando todos os países – ricos, médios e pobres – a repensar os seus sistemas de saúde e de apoio social. Em muitos contextos, a organização atual dos cuidados foi desenhada para sociedades mais jovens e já não responde às necessidades de uma população com cada vez mais pessoas acima dos 60 e 80 anos.

Hoje, a maioria da população mundial já tem esperança de vida igual ou superior a 60 anos, e a curva continua a subir. Em 2030, estima-se que uma em cada seis pessoas terá 60 anos ou mais, passando de cerca de mil milhões de pessoas em 2020 para 1,4 mil milhões. A projeção para 2050 aponta para 2,1 mil milhões de pessoas nessa faixa etária, praticamente o dobro do número atual de idosos.

O grupo dos muito idosos também está a crescer rapidamente, com a previsão de que o número de pessoas com 80 anos ou mais triplique entre 2020 e 2050, alcançando aproximadamente 426 milhões de indivíduos. Este aumento não é apenas um detalhe estatístico: ele altera profundamente a procura por cuidados de longa duração, reabilitação, apoio domiciliário e adaptações no meio urbano e habitacional.

Outra mudança estrutural é a deslocação do envelhecimento para países de rendimento baixo e médio, onde se concentram os maiores incrementos. Em 2050, estima-se que cerca de dois terços da população mundial com mais de 60 anos viverá nesses países, e que cerca de 80% das pessoas idosas estarão em contextos com menos recursos. Isso reforça a urgência de modelos eficientes, sustentáveis e integrados de cuidados.

Não existe, porém, uma “pessoa idosa típica”, pois a diversidade na velhice é enorme: alguns octogenários mantêm capacidades físicas, cognitivas e sociais comparáveis às de adultos de meia-idade, enquanto outras pessoas sofrem deterioração acentuada muito antes. Essa heterogeneidade obriga as políticas e os serviços a diferenciarem respostas, em vez de assumirem soluções uniformes para todas as pessoas com mais de 65 anos.

Biologia do envelhecimento e condições de saúde mais frequentes

Do ponto de vista biológico, o envelhecimento resulta da acumulação progressiva de danos celulares e moleculares, que reduzem a reserva funcional dos órgãos, aumentam a vulnerabilidade a doenças e, mais tarde, conduzem à morte. Estes processos não seguem uma linha reta: diferentes pessoas envelhecem a ritmos distintos, e mesmo no interior de uma mesma pessoa há funções que se preservam melhor do que outras.

Entre as condições de saúde mais comuns associadas à idade avançada, destacam-se perdas sensoriais e problemas osteoarticulares, como perda auditiva, cataratas, erros de refração visual, dores de costas e pescoço, osteoartrose, bem como doenças respiratórias crónicas, diabetes, depressão e demência. É também frequente que uma mesma pessoa viva com várias destas condições em simultâneo, o que complica o diagnóstico e o tratamento.

Além das doenças específicas, surgem os chamados síndromes geriátricos, quadros complexos que resultam da combinação de múltiplos fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre os mais relevantes estão a fragilidade, as quedas, a incontinência urinária, os estados de delírio agudo e as úlceras de pressão, todos com forte impacto na autonomia e na qualidade de vida. A identificação precoce e intervenções para reduzir o declínio cognitivo são parte essencial destas estratégias.

Os investigadores têm vindo a identificar marcadores biológicos precoces ligados à fragilidade e à longevidade, desde processos de stress oxidativo e inflamação crónica até alterações hormonais, imunológicas e cardiovasculares, como a aterosclerose. Sistemas como o músculo-esquelético (sarcopenia, osteopenia), o sistema nervoso (neurodegeneração) ou o metabolismo endocrino mostram sinais de desgaste que, quando detetados a tempo, podem orientar intervenções preventivas. Estudos genéticos recentes, incluindo pesquisas sobre variantes específicas, complementam a identificação destes marcadores biológicos precoces.

A interação entre envelhecimento e doenças crónicas é um eixo central da investigação, especialmente no que diz respeito a patologias altamente prevalentes, como doença cardiovascular, diabetes, osteoporose, fraturas, depressão, deterioração cognitiva e cancro. Compreender como estas doenças se combinam e se potenciam ao longo do curso de vida é essencial para desenhar programas de prevenção e de cuidados integrados.

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O que é envelhecer de forma saudável e ativa

Envelhecer de forma saudável não significa apenas ausência de doença, mas sim manter, durante o máximo de tempo possível, a capacidade funcional necessária para fazer aquilo que a própria pessoa considera importante. Isso inclui dimensões físicas, cognitivas, emocionais, sociais e económicas, todas fortemente influenciadas pelo ambiente em que se vive e pela história de vida.

Os estilos de vida ao longo de todo o curso de vida têm um peso determinante, desde o período pré-natal até à idade avançada. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, não fumar e moderar o consumo de álcool reduzem o risco de doenças não transmissíveis, atrasam a perda de capacidades e diminuem a probabilidade de dependência de cuidados intensivos no fim da vida.

Intervenções na área biofísica, como programas de exercício adaptado e promoção da nutrição adequada, são apontadas como estratégias-chave para prevenir a fragilidade e manter um bom estado funcional. A investigação recomenda o desenvolvimento de escalas de risco nutricional, de ferramentas para avaliar a condição física e de ações de formação para profissionais de saúde e de serviços sociais, integrando estes fatores na atenção primária. Exemplos práticos de programas de exercício adaptado mostram como implementar estas medidas na comunidade.

O envelhecimento saudável inclui também uma forte componente socioemocional, onde ganham importância recursos pessoais como a resiliência, as competências emocionais, a autoimagem positiva e as redes de apoio. Estudar e promover esses fatores de proteção, bem como combater estereótipos, discriminação e maus-tratos, é tão relevante quanto tratar doenças físicas; por isso, a estimulação sociocultural surge como intervenção com evidência de benefício.

A saúde mental ocupa um lugar central nesse quadro, sobretudo numa fase da vida em que perdas (de relações, de papéis sociais, de capacidades) podem aumentar o risco de depressão, ansiedade ou isolamento. As novas tecnologias, se bem desenhadas, podem ser aliadas na promoção do envelhecimento ativo e no atraso do envelhecimento do nosso cérebro, ajudando a manter contactos sociais, acesso a informação, teleassistência e participação comunitária.

Ambientes físicos, sociais e económicos que apoiam o envelhecer

Os contextos em que as pessoas vivem – casa, bairro, cidade, zona rural ou urbana – funcionam como determinantes poderosos do envelhecimento saudável e do envelhecimento social. A mesma pessoa, com a mesma condição clínica, pode ter vidas muito diferentes dependendo de se o ambiente facilita ou dificulta mobilidade, interação social, acesso a serviços e sensação de segurança.

O conceito de “ambiente amigo da idade” resume esta ideia, descrevendo comunidades que são boas para crescer, viver, trabalhar, brincar e envelhecer. Uma cidade amiga das pessoas idosas é, no fundo, um lugar melhor para todas as idades, porque melhora calçadas, transportes, espaços verdes, equipamentos culturais e serviços de proximidade.

A Organização Mundial da Saúde expandiu a Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas, que hoje integra cerca de 1500 cidades e comunidades em 51 países, abrangendo mais de 300 milhões de pessoas. Só nas Américas, mais de 800 cidades estão certificadas, o que faz desta região aquela com mais comunidades reconhecidas no mundo.

Fazer parte desta rede não é receber um selo permanente de “cidade ideal para idosos”, mas sim assumir um compromisso político e técnico: ouvir sistematicamente as pessoas mais velhas, avaliar e monitorizar as condições locais, trabalhar de forma intersetorial e partilhar experiências e resultados com outros territórios. A ênfase está no processo contínuo de melhoria.

Ferramentas como o “Place Standard” ou as guias da OMS para cidades amigas das pessoas idosas ajudam a avaliar a qualidade do ambiente construído e a sua relação com a saúde. Entre os aspetos centrais estão a facilidade para caminhar, a inclusão de natureza e espaços verdes, a existência de locais de convivência, bancos para descanso, proteção solar, atravessamentos seguros e oferta de comércio de proximidade com alimentos saudáveis.

Transformar cidades após a COVID-19 e repensar modelos residenciais

A pandemia de COVID-19 expôs com brutal clareza as fragilidades dos ambientes urbanos e dos modelos tradicionais de residência para idosos, sobretudo nas instituições de longa permanência, responsáveis por mais de metade das mortes em alguns países europeus. Ficou claro que viver mais não significa automaticamente viver melhor.

Vários países começaram a investir em mobilidade ativa e infraestruturas verdes, promovendo a bicicleta e as caminhadas como meios de transporte saudáveis e seguros. Esta mudança relaciona-se também com a necessidade de reduzir a poluição do ar, já associada a maior risco de infeções respiratórias, obesidade e diabetes, condições que agravam o impacto da COVID-19 e de outras patologias.

No campo residencial, cresce o consenso sobre a urgência de diversificar as alternativas às grandes instituições clássicas, apostando em modelos mais pequenos, integrados na comunidade e ajustados à heterogeneidade das pessoas idosas. Cohousing, habitações com serviços e programas intergeracionais são alguns exemplos já testados noutros países e analisados com detalhe em investigações sobre modelos como o dinamarquês.

A maioria das pessoas idosas expressa o desejo de permanecer na própria casa ou no seu bairro, mantendo relações de vizinhança e proximidade familiar. Isto exige que a planificação urbana defina regras claras sobre localização, acessibilidade e desenho das residências, centros de dia e outros equipamentos, analisados de forma multidisciplinar (arquitetura, gerontologia, saúde pública, serviços sociais).

Um bom desenho arquitetónico é fundamental para garantir a saúde e o bem-estar, equilibrando privacidade com possibilidade de olhar para a rua, ver espaços verdes, participar de eventos comunitários e usufruir de programas mistos (habitação + serviços + espaços de encontro). A tipologia das habitações, se são partilhadas ou individuais, condiciona a forma como são vividas e exige processos participativos com cuidadores, especialistas e, sobretudo, as próprias pessoas mais velhas.

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Bairros para toda a vida: princípios de desenho e planeamento gerontológico

Se o modelo residencial muda, também os bairros precisam ser revistos à luz da saúde e da idade, dado que muitos tecidos urbanos atuais carecem de um verdadeiro planeamento gerontológico. Pequenos detalhes de desenho podem fazer a diferença entre autonomia e isolamento para quem envelhece.

Entre os pontos críticos estão a proximidade e qualidade dos espaços verdes, a existência de sombra adequada nas zonas de permanência durante o verão, o acesso seguro a mercados e lojas de proximidade, passadeiras acessíveis e bem sinalizadas, e praças ou jardins que facilitem o encontro espontâneo entre vizinhos.

Princípios como familiaridade, legibilidade, singularidade, acessibilidade universal, conforto e segurança têm sido usados em guias de “bairros para toda a vida” em países como o Reino Unido. Ambientes fáceis de entender e de se orientar, com referências visuais claras, ausência de ruído excessivo, temperaturas confortáveis e perceção subjetiva de segurança, favorecem particularmente pessoas com limitações sensoriais ou cognitivas.

Existem experiências premiadas, como projetos que combinam atividades intergeracionais, habitação adaptada e espaços de convivência, mostrando que é possível redesenhar bairros existentes para os tornar mais inclusivos. Estes exemplos reforçam a necessidade de incluir as pessoas idosas no desenho dos espaços urbanos, não apenas como beneficiárias, mas como coautoras.

Evidências científicas sublinham ainda a importância de incorporar parâmetros de saúde no desenho arquitetónico, considerando qualidade do ar interior, conforto térmico, níveis de iluminação ajustados ao ciclo circadiano, presença de natureza com efeito terapêutico e soluções de acessibilidade pensadas também para pessoas com défices cognitivos.

Espaço vital, mobilidade e avaliação da autonomia

Preservar e melhorar a mobilidade é uma peça central do envelhecimento saudável, um dos grandes objetivos da Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030 das Nações Unidas. Não se trata apenas de medir força muscular ou velocidade de marcha, mas de entender até onde e como a pessoa se desloca no seu “espaço de vida”.

O conceito de mobilidade no espaço vital descreve a amplitude real dos deslocamentos de uma pessoa, começando pelos movimentos dentro de casa, passando pelo quarteirão, bairro, cidade e além. Quanto mais restrito esse espaço vital, maior a probabilidade de isolamento, perda de capacidades e dependência de terceiros.

Instrumentos como a Life-Space Assessment (LSA), desenvolvida pela Universidade do Alabama em Birmingham, tornaram-se referência na medição desta mobilidade, especialmente em idosos que vivem na comunidade. Revisões sistemáticas recentes mostram que a LSA apresenta boa validade de conteúdo, consistência interna elevada e forte correlação com medidas de função física.

Ao avaliar não apenas se a pessoa anda, mas onde anda e com que frequência, estas escalas ajudam profissionais e investigadores a identificar precocemente quem está a restringir o seu raio de ação, muitas vezes antes de surgirem limitações graves nas atividades da vida diária. Isso permite intervenções mais dirigidas, desde fisioterapia e adaptação da casa até programas de transporte comunitário.

O uso crescente destas ferramentas confirma que a mobilidade no espaço vital é um indicador-chave de envelhecimento saudável, complementando exames clínicos e avaliações cognitivas. Integrá-las em programas de atenção primária e de cuidados comunitários pode melhorar a estratificação de risco e a personalização dos planos de intervenção.

Modelos integrados de cuidados: o caso do centro sociossanitário de Aretxabaleta

Responder aos desafios do envelhecimento exige modelos de cuidados que integrem saúde, apoio social e comunidade, abandonando lógicas fragmentadas em que cada serviço trabalha isoladamente. O projeto piloto POBA, no centro de saúde de Aretxabaleta, no País Basco, ilustra bem este novo paradigma.

POBA (Pertsonen Ongizatea Begirada Anitzetik Aretxabaleta) foi concebido como um espaço único onde serviços sanitários, sociais e comunitários atuam de forma coordenada, num mesmo edifício, com equipas que partilham informação e objetivos. O foco está em pessoas com 70 ou mais anos, privilegiando prevenção, proximidade e personalização dos cuidados.

Numa primeira fase, o sistema de saúde basco identificou 1272 residentes com 70+ anos no município, dos quais cerca de 55% participaram numa avaliação inicial baseada no Plano de Atenção às Pessoas Idosas. A classificação resultante distinguiu 146 pessoas dependentes, 46 frágeis e 505 robustas, permitindo ajustar a intensidade e o tipo de acompanhamento.

O modelo estrutura-se numa lógica centrada na pessoa, com forte componente preventiva, passando de uma abordagem essencialmente reativa para outra proativa, antecipando situações de fragilidade. A avaliação é multidimensional – clínica, funcional, cognitiva, emocional e social – e conduz à elaboração de um único Plano Individualizado de Atenção Sociossanitária, negociado com a própria pessoa.

A configuração física do edifício reflete esta integração, com três pisos dedicados a consultas e serviços de saúde (medicina de família, enfermagem, pediatria, entre outros) e o último piso reservado aos serviços sociais municipais. Em mais de 2000 m² úteis, quadruplicou-se o espaço assistencial face às antigas instalações, otimizando fluxos e facilitando a coordenação.

Coordenação sociossanitária, prevenção da fragilidade e vocação de futuro

Um dos pilares do projeto é a prevenção ativa da fragilidade, mediante identificação precoce de riscos como quedas recorrentes, polimedicação, declínio cognitivo ou situações de solidão. A partir daí, são desenhados programas personalizados para manter a autonomia e retardar a dependência, combinando intervenções clínicas, sociais e comunitárias.

A pandemia de COVID-19 reforçou a perceção da importância desta coordenação sociossanitária, mostrando que a falta de articulação entre sistemas de saúde, serviços sociais e estruturas residenciais agrava vulnerabilidades e gera duplicidades ou vazios assistenciais. Modelos integrados, baseados em respostas precoces e continuidade de cuidados, ganham assim protagonismo.

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Em Aretxabaleta foram definidos protocolos claros de derivação e atuação em situações de emergência ou mudança abrupta de estado de saúde, garantindo que nenhum caso “cai entre as malhas” do sistema. Esta abordagem melhora a eficiência no uso dos recursos públicos e aumenta a satisfação tanto das pessoas idosas como das suas famílias.

Na fase atual, POBA concentra-se nas pessoas com 70 ou mais anos, mas a sua vocação é de expansão futura para outros grupos em situação de vulnerabilidade, como pessoas com deficiência, com perda de autonomia ou em risco de exclusão social. A expectativa é reduzir institucionalizações evitáveis, aumentar o número de pessoas com avaliação multidimensional e plano personalizado, e melhorar significativamente a qualidade de vida.

Este projeto insere-se numa evolução mais ampla das políticas de saúde e cuidados do País Basco, alinhada com estratégias como o Pacto Basco pela Saúde, que privilegia prevenção, promoção da saúde, atenção integral e inovação organizativa. Também está em sintonia com planos estratégicos provinciais e com iniciativas de fundações dedicadas ao envelhecimento, reforçando uma visão de cuidados mais humanos, próximos, eficientes e sustentáveis.

Valência como espaço de referência europeu em envelhecimento ativo e saudável

Ao nível europeu, a Comissão Europeia reconhece determinados territórios como “sitios de referência” em envelhecimento ativo e saudável, por demonstrarem excelência na implementação e escalabilidade de práticas inovadoras ao longo do curso de vida. Valência é um desses espaços de referência, com a classificação máxima de quatro estrelas na 4.ª Convocatória da EIP on AHA.

Este reconhecimento coloca Valência entre as regiões líderes na Europa, tanto pelo desenvolvimento de estratégias integradas de inovação em saúde e assistência como pela capacidade de envolver diferentes atores num modelo de “quádrupla hélice”: autoridades de saúde e governo, indústria, academia e sociedade civil.

O Sitio de Referencia Valencia (VLC RS) é liderado pela Conselleria de Sanitat e coordenado pelo Instituto INCLIVA, reunindo entidades como Las Naves, FISABIO, a Fundação do Hospital Geral Universitário de Valência, o instituto POLIBIENESTAR da Universidade de Valência, o instituto ITACA da Universidade Politécnica de Valência, a empresa Atenzia e a Associação de Familiares de Alzheimer de Valência, com colaboração de outras organizações especializadas em I&D.

Valência é concebida como um laboratório vivo multidisciplinar onde se testam soluções inovadoras em saúde, sempre com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos cidadãos em todas as idades. Os diferentes agentes participam conjuntamente no desenho, prototipagem, teste, aperfeiçoamento e implementação de soluções, desde tecnologias digitais a novos modelos de serviços comunitários.

A forte participação em projetos europeus financiados, como BigMedilytics, Activage e ValueCare, reforça esta posição de vanguarda, permitindo transferir conhecimento, experimentar em grande escala e replicar iniciativas bem-sucedidas noutros contextos. Ao mesmo tempo, o VLC RS alimenta políticas regionais, como o V Plano de Saúde da Comunidade Valenciana e as missões de Valência 2030 na área de cidade saudável e envelhecimento ativo.

Investigação, redes europeias e futuro dos “espaços de referência”

Por trás destes exemplos concretos existe uma ampla teia de investigação e cooperação europeia sobre envelhecimento, com redes e iniciativas como ERA-AGE2, FUTURAGE, a JPI “More Years, Better Lives” ou consórcios como Ambient Assisted Living (AAL) e SHARE. Todas partilham a ambição de transformar o envelhecimento populacional de desafio em oportunidade social.

Congressos e projetos de elaboração de mapas de investigação em envelhecimento têm enfatizado a necessidade de terminologia comum (por exemplo, clarificar noções como envelhecimento ativo, saudável, livre de incapacidade ou fragilidade), de abordagens multidisciplinares e de estudos comparativos entre países e regiões, incluindo níveis subnacionais com diferentes modelos de bem-estar. A discussão sobre teorias do envelhecimento contribui para essa clarificação conceitual.

Do ponto de vista metodológico, recomenda-se combinar métodos quantitativos e qualitativos, explorar dados administrativos já existentes (saúde, pensões, rendimentos, cuidados) com inquéritos específicos, e apostar fortemente em estudos longitudinais que permitam seguir coortes ao longo do tempo. Também se salientam os estudos de intervenção e avaliação de políticas, com participação ativa das próprias pessoas idosas.

A criação de bases de dados de investigadores, projetos e resultados, bem como o incentivo a jovens cientistas para se dedicarem a este campo, são vistos como peças estratégicas para consolidar um verdadeiro espaço europeu de investigação em envelhecimento. A cooperação internacional, por meio de redes, consórcios e estruturas virtuais de colaboração, é crucial para aproveitar sinergias e evitar duplicações.

Ao mesmo tempo, é preciso garantir que o conhecimento gerado seja efetivamente transferido para a sociedade, influenciando a elaboração de políticas, a organização dos serviços, as soluções tecnológicas e a perceção pública do envelhecimento. Aqui, os meios de comunicação têm um papel importante na construção de imagens positivas das pessoas idosas e na luta contra o idadismo.

No conjunto, estes movimentos mostram que o envelhecimento deixou de ser apenas um tema de nicho para especialistas e passou a ser um eixo central do planeamento urbano, da inovação em saúde, da política social e da estratégia económica de muitos países. Espaços de referência, como Valência ou Aretxabaleta, funcionam como faróis que iluminam caminhos possíveis, demonstrando que é viável construir comunidades onde envelhecer seja sinónimo de possibilidades, e não apenas de limitações.