Videojogos da infância e estresse: entre refúgio emocional e risco

Última actualización: janeiro 28, 2026
  • Videojogos nostálgicos como Super Mario e Yoshi podem despertar maravilhamento infantil, aumentar a felicidade e reduzir o risco de esgotamento em jovens adultos.
  • O ato de brincar, digital ou não, é uma necessidade biológica que regula emoções, reforça laços sociais e ajuda a diminuir o estresse quando ocorre com equilíbrio.
  • Na infância, jogos digitais intensos podem acionar respostas de luta ou fuga, gerar hiperexcitação e dificultar a autorregulação, favorecendo um quadro de estresse crônico.
  • Pais, educadores e jogadores precisam ajustar limites e contextos de uso para que os videogames funcionem como aliados do bem-estar mental, e não como fonte adicional de sobrecarga.

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Quem cresceu com jogos como Super Mario Bros. ou Yoshi sabe aquele sentimento de voltar a ser criança por alguns minutos, esquecer os boletos, a faculdade, o trabalho, e simplesmente se divertir. Essa sensação aparentemente simples de nostalgia e encantamento infantil tem chamado a atenção de pesquisadores, que começam a enxergar os videogames da infância como um possível aliado contra o estresse e o esgotamento em jovens adultos.

Longe de serem apenas “perda de tempo”, esses jogos coloridos e cheios de fantasia podem funcionar como pequenos refúgios emocionais em meio à cultura de estar sempre conectado, às cobranças acadêmicas e às exigências digitais constantes. Ao mesmo tempo, quando usados de forma exagerada ou em jogos muito intensos, especialmente na infância, podem acionar mecanismos de estresse semelhantes aos de situações reais de perigo. Entender esse equilíbrio é fundamental para aproveitar o potencial dos videogames sem ignorar seus riscos.

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Videojogos da infância, maravilhamento e bem-estar emocional

Um estudo conduzido por cientistas do Imperial College London, no Reino Unido, em parceria com a Universidade Kyushu Sangyo, no Japão, analisou como jogos clássicos e familiares podem despertar uma sensação de “maravilhamento infantil” em jovens adultos. Esse termo se refere àquela mistura de curiosidade, surpresa, encanto e alegria típica da infância, quando tudo parece novo e cheio de possibilidades.

Nessa pesquisa, títulos populares como Super Mario Bros. e Yoshi foram apontados pelos participantes como experiências leves, inspiradoras e cheias de lembranças de uma infância despreocupada. Muitos estudantes universitários entrevistados relataram que, ao jogar, sentiam que voltavam por alguns instantes a um tempo em que as responsabilidades eram menores e o cotidiano parecia mais simples.

Os autores do estudo mostraram que, quando esse maravilhamento é despertado, ocorre um aumento perceptível nos níveis de felicidade geral relatados pelos jogadores. E, de forma muito relevante, essa maior felicidade se associou a um risco significativamente menor de esgotamento (burnout), um problema cada vez mais comum entre jovens sobrecarregados.

Ao analisar os dados, os pesquisadores observaram que a felicidade não era apenas um fator a mais na equação, mas sim o elo principal entre o sentimento de maravilhamento e a redução do esgotamento. Em outras palavras, o jogo desperta o encantamento infantil, que eleva o humor e a satisfação com a vida, o que por sua vez protege contra o cinismo, a fadiga e o desgaste emocional.

O estudo foi publicado na revista científica JMIR Serious Games e se destaca por ser um dos primeiros a propor o “maravilhamento infantil” como um caminho psicológico concreto que conecta o jogo cotidiano ao bem-estar mental. Isso amplia a forma como entendemos o papel dos videogames: não apenas como entretenimento, mas como possível ferramenta de saúde emocional, quando usados com equilíbrio.

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Como o estudo foi feito: entrevistas, questionários e games nostálgicos

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores começaram com entrevistas detalhadas com estudantes universitários que jogavam principalmente títulos da série Super Mario Bros. e jogos da franquia Yoshi. O objetivo era entender, na prática, o que esses jogos significavam no dia a dia dos jovens e quais emoções surgiam durante as sessões de jogo.

Nas entrevistas, os participantes descreveram os jogos como “inspiradores”, “aconchegantes” e capazes de despertar lembranças de momentos felizes da infância, sem grandes preocupações. As cores vibrantes, os cenários criativos e o clima otimista foram citados como elementos que traziam calma, leveza e alegria, mesmo após dias cheios de estudos ou trabalho.

Muitos desses jovens contaram que jogar por um tempo oferecia um respiro bem-vindo frente à pressão acadêmica, às notificações constantes e à sensação de ter de estar disponível o tempo todo no mundo digital. Em uma geração marcada pela cultura do “sempre online”, a possibilidade de mergulhar em um universo lúdico e previsível funciona quase como um pequeno refúgio psicológico.

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Depois dessa etapa qualitativa, os cientistas aplicaram um questionário a 336 jogadores para testar, em uma amostra maior, as ideias surgidas nas entrevistas. A pesquisa avaliou o quanto os participantes sentiam esse maravilhamento infantil ao jogar, seus níveis gerais de felicidade e o grau de esgotamento emocional.

Os resultados reforçaram o que vinha aparecendo nos relatos: quem relatava sentir mais maravilhamento ao jogar também se dizia mais feliz e, ao mesmo tempo, apresentava menor risco de burnout. Mais uma vez, as análises estatísticas apontaram que a felicidade era o componente que mediava toda essa relação, funcionando como peça central da reação em cadeia de bem-estar gerada pelos jogos.

Super Mario, Yoshi e os “microambientes digitais” de recuperação

Um ponto interessante levantado pela pesquisa é que jogos como Super Mario Bros. Wonder e Yoshi’s Crafted World foram frequentemente descritos como ambientes acolhedores, seguros e emocionalmente confortáveis. Os jogadores comentaram que esses mundos virtuais pareciam calorosos e convidativos, permitindo relaxar sem se sentir julgados ou pressionados a performar.

Os autores do estudo sugerem que esse tipo de jogo pode funcionar como “microambientes digitais” de recuperação emocional, acessíveis, de fácil uso e, principalmente, sem a lógica de alta pressão típica de muitos contextos da vida real. Em vez de serem fontes adicionais de cobrança, esses títulos atuam como pausas breves de descanso psíquico.

Para estudantes universitários com pouco tempo livre e níveis elevados de estresse, esses minutos de imersão em um universo lúdico podem representar uma forma discreta de recarregar as baterias emocionais. Mesmo sem intenção terapêutica explícita, o simples ato de jogar algo familiar e criativo pode fortalecer a resiliência diante das dificuldades.

O professor Andreas B. Eisingerich, um dos responsáveis pela pesquisa, destacou que combater o esgotamento em adultos jovens talvez exija ir além das estratégias tradicionais de bem-estar, incluindo a recuperação da alegria como componente central. Na visão dele, jogos que evocam o encantamento infantil podem atuar como um antídoto potente contra o cinismo e o cansaço característicos do burnout.

Essa linha de raciocínio abre espaço para pensar os videogames não só como algo a ser limitado ou vigiado, mas também como ferramentas, ainda pouco exploradas, para a promoção da saúde mental. Claro que não se trata de uma solução mágica, mas de um recurso complementar dentro de um estilo de vida equilibrado.

O brincar como necessidade biológica: do quintal aos videogames

Antes mesmo de falarmos de videogames, é importante lembrar que o ato de brincar é considerado pela psicologia do desenvolvimento como uma necessidade biológica, e não apenas um passatempo supérfluo. Desde a infância, é através do jogo que aprendemos a resolver problemas, a conviver com outras pessoas e a lidar com nossas emoções.

Na natureza, muitos animais – como felinos, cães e primatas – também se engajam em brincadeiras, especialmente quando jovens, para treinar reflexos, habilidades motoras e laços sociais. O comportamento lúdico cumpre uma função adaptativa importante, preparando o organismo para desafios futuros.

Em seres humanos, brincar ativa áreas do cérebro ligadas ao prazer, à motivação e à regulação emocional, incluindo estruturas do sistema límbico e regiões do córtex pré-frontal. Durante atividades lúdicas, há liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa, e redução dos níveis de cortisol, o principal hormônio do estresse.

Videogames entram nesse contexto como uma das muitas formas modernas de jogo, capazes de estimular habilidades cognitivas como memória, atenção e tomada de decisão. Quando usados com moderação e propósito, podem complementar outras atividades recreativas, como esportes, jogos de mesa e brincadeiras ao ar livre.

Pesquisas de universidades como o MIT e Oxford indicam que, em tempos moderados, certos jogos digitais podem favorecer a memória espacial, a atenção sustentada e a velocidade com que decidimos diante de desafios. Jogos cooperativos e de estratégia também ajudam a desenvolver colaboração, empatia e resiliência, já que frequentemente envolvem planejamento, adaptação e trabalho em equipe.

Jogos de mesa, risadas e pertencimento social

Embora os videogames sejam o foco de muitos debates atuais, os jogos de mesa continuam sendo um exemplo poderoso de como o brincar afeta o cérebro e as emoções. Através de atividades como xadrez, dominó ou cartas, exercitamos raciocínio lógico, paciência, planejamento e tolerância à frustração.

Outros jogos presenciais, mais criativos e descontraídos, priorizam a imaginação, o humor e a interação cara a cara, criando momentos de riso coletivo e conexão. Estudos da American Psychological Association (APA) mostram que rir e brincar em grupo reduz a ansiedade e fortalece a sensação de pertencimento, fator essencial para a saúde mental.

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Essa dimensão social do jogo ajuda a entender por que grupos de amigos se reúnem para maratonas de videogame ou sessões de board games nas férias. Além de distração, esses encontros funcionam como redes de apoio emocional, onde as pessoas se sentem menos sozinhas diante das pressões do dia a dia.

Quando o jogo – digital ou analógico – acontece em um ambiente seguro, com respeito a limites e equilíbrio com outras áreas da vida, torna-se um aliado importante na prevenção do estresse crônico. A chave está em evitar extremos, como o isolamento social em função do jogo ou a completa ausência de momentos lúdicos na rotina.

Férias, fluxo e alívio do estresse

Férias costumam ser associadas a descanso, viagens e encontros em família, mas também representam uma oportunidade valiosa para retomar atividades lúdicas que ficam de lado durante o ano. Jogar videogame com amigos, montar um quebra-cabeça com parentes ou organizar uma partida de futebol no bairro são formas simples de reativar a criatividade e a curiosidade.

Ao se envolver profundamente em uma atividade prazerosa, muitas pessoas experimentam o chamado “estado de fluxo” – um nível de concentração tão intenso que a pessoa perde a noção do tempo e sente a mente mais leve. Esse estado está associado à redução da ruminação mental e a um maior bem-estar emocional.

Em contextos saudáveis, videogames podem facilitar esse tipo de imersão, especialmente quando o jogador se sente desafiado na medida certa, sem frustração excessiva nem tédio. O equilíbrio entre desafio e habilidade é um dos fatores que mais contribuem para que o jogo seja prazeroso e, ao mesmo tempo, relaxante.

Para jovens adultos exaustos com estudos e trabalho, reservar um tempo controlado para jogar pode ser uma forma legítima de aliviar tensões, desde que não substitua completamente o sono, a atividade física e o contato social real. Usar o jogo como pausa planejada, e não como fuga permanente, faz toda a diferença no impacto sobre o estresse.

Essa perspectiva ajuda a diferenciar o uso saudável do uso problemático: quando o jogo é uma das maneiras de cuidar de si, ele tende a somar; quando vira única estratégia para evitar a realidade, o risco de desequilíbrio aumenta.

Quando o videogame vira gatilho de estresse na infância

Se entre adultos alguns jogos podem aliviar o estresse, em crianças o cenário pode ser bem diferente, especialmente com jogos cheios de estímulos intensos, violência ou competição constante. O sistema nervoso infantil ainda está em desenvolvimento, o que torna a regulação emocional mais frágil.

Para ilustrar, imagine a situação de uma criança de cerca de 8 anos que, em meio ao aniversário da irmã mais nova, prefere se isolar no quarto para jogar videogame. Enquanto a família celebra, ele se sente sobrecarregado com o movimento, busca refúgio na tela e recebe permissão “excepcional” para jogar mais do que o habitual.

Em poucas dezenas de minutos de jogo intenso, o cérebro da criança passa a receber uma enxurrada de estímulos: luzes fortes, sons constantes, desafios rápidos, interações online e a sensação de estar em perigo, fugindo de inimigos ou tentando “sobreviver” no jogo. Mesmo sentado no sofá, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça real.

Batimentos cardíacos aumentam, a pressão arterial sobe, a adrenalina e o cortisol disparam, preparando o organismo para lutar ou fugir. A luz da tela, muitas vezes LED, envia sinais ao cérebro que dificultam a sonolência, como se ainda fosse dia, e o sistema de recompensa é inundado por dopamina, reforçando o foco extremo na partida.

Explosões emocionais, desregulação e estresse crônico

Quando essa criança é interrompida abruptamente – por exemplo, porque os pais decidem que é hora de cantar parabéns ou desligar o videogame -, o cérebro ainda está no modo “guerra”, pronto para reagir a qualquer ameaça. O resultado pode ser um acesso de raiva, gritos, choro intenso e comportamento agressivo, como jogar objetos ou bater portas.

Do ponto de vista do adulto, pode parecer apenas “birra” ou falta de limites, mas neurobiologicamente há um organismo hiperativado tentando se regular de volta, ainda sob efeito de altos níveis de cortisol e adrenalina. A criança literalmente sente que não consegue se acalmar de imediato.

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Mesmo após desligar o jogo, o sistema nervoso leva horas para voltar ao equilíbrio; durante esse tempo, a criança pode apresentar agitação, dificuldade para dormir, pesadelos, medo da escuridão e sentimentos de culpa pelo que aconteceu. O sono fragmentado, por sua vez, alimenta ainda mais o cansaço e a irritabilidade no dia seguinte.

No longo prazo, quando episódios de hiperexcitação relacionados a telas se repetem com frequência, o cérebro e o corpo enfrentam dificuldades crescentes para regular o estresse. Especialistas apontam que isso pode contribuir para um estado de estresse quase permanente, com impacto em atenção, criatividade, empatia e capacidade de seguir instruções.

Crianças expostas regularmente a jogos muito intensos podem ficar mais impulsivas, com baixa tolerância à frustração e dificuldade em mudar de atividade, justamente porque o sistema de recompensa está acostumado a níveis altíssimos de estímulo. Em termos simples, tudo que não é tão excitante quanto o jogo passa a parecer “chato” demais.

Por que o cérebro infantil não consegue “se autorregular” sozinho

Muitos adultos acreditam que, com o tempo, as crianças “aprendem a se controlar” e a gerenciar o uso da tecnologia sozinhas, mas isso ignora o fato de que o cérebro infantil ainda não tem todas as estruturas de autorregulação maduras. Esperar que uma criança pequena limite espontaneamente seu tempo de tela é tão irreal quanto esperar que ela organize um orçamento familiar.

O sistema nervoso das crianças é extremamente sensível a ameaças percebidas – sejam elas reais ou virtuais -, e os circuitos responsáveis pelo equilíbrio entre emoção e razão ainda estão em construção. Por isso, situações repetidas de estresse digital intenso podem facilitar um padrão de reatividade crônica.

Entender como a tecnologia afeta o cérebro na infância pode transformar radicalmente a forma como pais e cuidadores definem regras para o uso de telas. Em vez de proibir tudo ou liberar sem critérios, torna-se possível estabelecer limites informados, adequados à idade e ao perfil da criança.

Também é importante lembrar que, apesar de vivermos cercados de dispositivos digitais, a forma como o cérebro responde ao estresse continua sendo basicamente a mesma de milhares de anos atrás. O organismo não foi projetado para ficar em alerta máximo várias horas por dia diante de estímulos artificiais tão intensos.

Por isso, orientar o uso de videogames na infância não significa demonizar a tecnologia, mas ajudar o desenvolvimento saudável, garantindo tempo para sono adequado, brincadeiras ao ar livre, contato social real e momentos de tédio criativo – todos fundamentais para um cérebro em formação.

Jogar para aprender: gamificação, memória e cérebro

Do ponto de vista da educação e da neurociência, o jogo também é uma ferramenta poderosa para aprender, porque fortalece conexões neurais e favorece a memória de longo prazo. Quando o cérebro associa um conteúdo a uma experiência prazerosa, a chance de lembrar aumenta bastante.

É por isso que tantas escolas e universidades passaram a adotar metodologias baseadas em elementos de jogo, como a gamificação. Sistemas de pontos, desafios, níveis e recompensas, inspirados em videogames, são usados para aumentar a motivação, a curiosidade e o pensamento crítico dos alunos.

Quando bem planejadas, essas estratégias lúdicas ajudam a transformar tarefas monótonas em atividades mais envolventes, sem que o foco no aprendizado se perca. O objetivo não é transformar tudo em brincadeira vazia, mas usar mecanismos de jogo para potencializar o interesse genuíno.

Essa mesma lógica vale para o uso de videogames fora da escola: quando o jogo é visto como uma entre várias formas de explorar o mundo, testar hipóteses e lidar com frustrações, ele pode somar ao desenvolvimento cognitivo e emocional. O problema surge quando substitui por completo outros tipos de experiência e interação.

Assim, tanto o estudo sobre Super Mario e Yoshi quanto as pesquisas em neuroeducação convergem em um ponto: o jogo, em diferentes formatos, pode ser um aliado importante do bem-estar e do aprendizado, desde que venha acompanhado de limites saudáveis.

Entre o refúgio nostálgico que ajuda jovens adultos a driblar o esgotamento e os riscos de hiperestimulação em crianças, os videogames mostram que são uma ferramenta ambivalente, capaz de cuidar da mente ou sobrecarregá-la dependendo de como são usados; compreender essa dualidade permite aproveitar melhor o encantamento dos jogos da infância para reduzir o estresse, sem perder de vista a responsabilidade ao introduzi-los na rotina das gerações mais novas.